A primeira reunião de trabalho, para avaliação e fixação de metas, do atual governo esbarra num dado elementar: não havendo ''projeto nacional'', o que sempre ocorreu no Brasil, embora algumas ousadias de Vargas, de JK e as mais articuladas do regime militar (nosso PIB crescia em níveis chineses), difícil é imaginar como decalcá-lo em patamar regional. Para o bem do governo atual há uma pessoa qualificada e em condições de recuperar a mística do planejamento com Eleonora Fruet e capaz de arrebanhar e motivar a massa crítica existente e revitalizar o Ipardes.
Impossível é balisar a ação de um governo pelo facilitário demagógico vendido em drágeas ou em compota nas eleições como essa estória de dar leite e energia de graça ao excluído. O próprio Lula, ao eleger como idéia-força a Fome Zero, embarcou no trilho fácil da demagogia, mesmo quando se argumentou que esse movimento visaria mobilizar setores sociais para aquele objetivo.
EQUÍVOCOS O governo Lerner teve um secretário de Planejamento (e que primeiro serviu na Fazenda) qualificado em Miguel Salomão. Era impossível, no entanto, articular qualquer coisa na maneira como se lançaram projetos como o dos Anéis da Integração, o de uma nova etapa de industrialização, agora tendo como carro-chefe as montadoras, o que é um brutal equívoco, e tantos outros nas áreas de urbanização e de desenvolvimento urbano. Havia idéias, até em excesso, algumas estapafúrdias como os Jogos da Safadeza, a Universidade Virtual das Américas e a idiotice plena do Pólo Editorial.
Mas, pelo estilo do time que está em campo, dá para perceber que o cenário é sáfaro para idéias. O repeteco do conflito entre Comec e Prefeitura é uma dessas evidências, isso sem falar no cortejamento primário à galera embutido nessa acrobacia do leitinho e da luz de graça. Há pessoas habilitadas a esse tipo de engenharia e podem ser aí alinhados como capazes, além da Eleonora, mais duas figuras consulares: Reinhold Stephanes e Heron Arzua, ambos avessos às seduções do populismo barato.
ATITUDES Desde a tomada de posse havia a previsão de que Requião, como é próprio do estilo, cultor da personalidade e autoritário (isso não existia em Lerner), tal qual Alvaro Dias se houvesse ganho, faria uma gestão de ''atitudes'' mais do que de obras. Alvaro deu o exemplo em ''Segredo'': o impacto da denúncia de formação de cartel pelas barrageiras era mais forte do que a grande obra que estava em construção e cujos ''finalmente'' chegaram até Lerner com a decisão do Conselho da Copel de fazer um acordo de R$ 90 milhões com a CR Almeida para evitar o pior de uma demanda supostamente perdida.
Esse fato - embora haja a suspeita de essa decisão não ter esgotado as possibilidades jurídicas do Estado na demanda - serve, no entanto, de alerta à onda atual de quebra de contratos. Se a ameaça no caso da Sanepar deu bom resultado dificilmente se dará o mesmo com outras como a dos convênios de informática e, especialmente, a do pedágio ou essa pretensa revisão do controle das contas oficiais pelo Itaú. Claro que a pressão pode levar a alguma revisão quando houver fragilidade jurídica ou manifesta irregularidade.
DESFAZER É legítimo questionar tudo o que o governo anterior aprontou. Mas é também indispensável olhar pra frente, pois a impressão de que esse desfazer constante conflita com o sentido do ''fazer'' atinge a todos. Mudar o nome de projetos como a ''Vila Rural'' ou a titulação do NovoMuseu não satisfaz.
Essa, aliás, é velha mania de governantes e até de alguns bons como o de Ney Braga, inconfrontável com os mais recentes. Pois Ney encontrou a estrada Curitiba-Ponta Grossa concluída e inaugurada, embora com alguns reparos a serem feitos, e praticamente a deu como obra sua como se o ato de incluir outros nomes no obelisco, na altura do Spréa, fosse suficiente. Munhoz da Rocha várias vezes se referiu à continuidade que deve marcar a sequência dos governos como o suceder das gerações, o que soa acaciano e óbvio se despojado do brilho com que cunhava as frases. Governo é continuidade, não continuísmo e deve-se governar com visão de escala e do futuro. Tudo isso seria o óbvio ululante se não vivêssemos no Brasil onde a fome pelo efeito imediato e com ganhos na política parece dominar os medíocres que dela se servem.

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