LUIZ GERALDO MAZZA - Tentativa contra a autarquia
Nosso maior defeito, e que explica a falta de prestígio nacional do Paraná, é o fato de falarmos para dentro, autarquicamente. Nem os feitos de Lerner, uns exagerados pela mitificação publicitária, outros válidos (como os que o levaram a dirigir a entidade internacional dos arquitetos) tiveram força suficiente para superar nossos limites.
Todo o esforço dirigido para superar essa contingência regionalista, também minada pela prática sistêmica da autofagia, e que ganha expressão nacional e internacional deve ser estimulado. Agora a Travessa dos Editores lança o número zero da revista (de altíssimo padrão gráfico) ''Et Cetera Literatura & Arte'' e adota essa linha abrangente de não se ater aos valores regionais mas inserindo-os, quando existentes, numa perspectiva nacional. O rigor na seleção dos textos habilita-a a um público que vai além do Brasil.
ANTECEDENTES Não é a primeira vez que isso acontece. A publicação ''Gráfica'' do Osvaldo Miranda, meu conterrâneo de Paranaguá, conhecido mundialmente na área do design e da arte publicitária, cumpria esse papel, ainda que voltado a um tipo de público altamente sofisticado. Daí a publicação ter dependido de anunciantes oficiais e institucionais como o Bamerindus para sobreviver.
Numa escala razoável, o jornal ''Nicolau'', uma adaptação do ''Joaquim'' de Dalton Trevisan a um cenário mais trepidante, obteve bons resultados em termos de proselitismo e intercâmbio cultural, ainda que sustentado por via oficial. Tivemos outras experiências que romperam com limites geográficos, dentre elas a sofisticada ''Forma'' que tinha gabarito para circulação nacional (Cleto de Assis e Philomena Gebran a editavam) e tirou apenas dois números.
Houve um tempo (a âncora Maria Flores da Globo regional faz trabalho de mestrado sobre o assunto) em que tínhamos a Editora Guaíra do velho Plácido e Silva que produzia a revista mensal ''Guaíra'' e editava inclusive autores malditos como o norte-americano John dos Passos e Icaza, um dos primeiros da linha do realismo fantástico (''Uaisipungo'').
Esse núcleo editoral atraía autores nacionais seguidamente a Curitiba e era uma oportunidade de lançar as artes de Poty como um dos capistas dessas obras ao lado de outros nomes de expressão nacional. Não tínhamos a força da Editora Globo de Porto Alegre, mas havia uma presença importante. Uma biblioteca marxista estava entre as suas edições, e não me esqueço da ''História do Paraná'' de Romário Martins, que serviu de base para alimentar incursões de outros especialistas, e também de um saboroso estudo de Roger Bastide denominado ''A psicanálise do cafuné''.
REFLEXÃO É nessas questões que precisamos fincar uma estratégia, pois acreditar que essa representação parlamentar de que dispomos, cada vez mais precária, seria suficiente para cumprir esse papel seria deserção. Daí a insistência (coloquei a idéia para os governos desde os anos 60) que tenho feito na necessidade de catalogar a nossa massa cinzenta técnica, científica, cultural enfim, aí incluindo os que permaneceram e os que migraram para centros maiores como Fausto Castilho, filósofo e cientista político da Unicamp, o linguista Aryon Dalig'na Rodrigues da USP, a maior autoridade em geopolítica do Centro de Estudos Estratégicos da Unicamp, o parnanguara Geraldo Cavagnari. Enfim um cadastro da mão de obra estratégica, no qual, obviamente, estariam os da terra e de universidades.
A revista ''Et Cetera Literatura & Arte'' é algo nessa direção brasileira e universal sem qualquer toque provinciano a despeito de ter dado o destaque ao texto ''O Elogio da Bosta'', de Ernesto Luis de Oliveira (pai do Luisinho, atacante do escrete de 38 do Brasil e de quem tanto se orgulhava como Coelho Neto fez com o seu filho o artilheiro Preguinho, do Fluminense e da Seleção). ''O Elogio da Bosta'' é um primor de irreverência, em que alguns desses exagerados exegetas da arte viram um sinal do ''nouveau roman''. Tivemos uma chance, quase perdida, com a Rede OM de Televisão que poderia ter nos colocado no mapa nacional. Apenas discurso paranista não resolve, é conversa pra dentro, vamos desencaramujar.





