LUIZ GERALDO MAZZA - Subversão de prioridades
Está provado: o nosso governador seria um ótimo executivo para províncias européias ou norte-americanas, tal a forma com que se deleita com os feitos na área cultural como se deu ontem com a inauguração do NovoMuseu, belíssima obra que mereceu cobertura nacional na condição de a de maior porte da América Latina e uma das mais expressivas do mundo. Vamos fazer um exercício de traço utilitário, pragmático, para operar como contraponto à manifestação dessa anestesia dionisíaca: desde 1994, quando assumiu o governo, Lerner tinha tudo para terminar o Contorno Norte e em 1998 chegou a ''inaugurar'' essa via importante para o desvio do tráfego pesado (há convites impressos do fajuto ato de solenidade) e hoje faltam ainda oito quilômetros para concluí-la.
Para tocar o museu e fechar o seu ciclo em euforia foram mobilizados R$ 49 milhões e tudo num cronograma de assustar em cinco meses com ação diuturna que em tudo lembrava certos estágios da construção do Centro Cívico e das obras do Centenário em 1953. Pois bem: o Contorno Norte continua parado e carretas e caminhões ocupam a Avenida Manoel Ribas. Desde que Requião deixou o governo, o Contorno avançou muito pouco e cerca de 1.500 metros feitos na gestão Lerner tiveram que ser reprocessados porque o pavimento degradou.
Em cinco meses se concluiu uma obra que jamais constou do plano diretor do Centro Cívico. Aliás as agressões ao espaço continuam, aí incluída essa montagem do alambrado que cerca as edificações, isso sem falar no monstrengo do Fórum, arquitetura pesada e, por isso mesmo, incompatível com a linha predominante daquela área e hoje em completa degradação.
É importante o museu, apesar da fragilidade do acervo. O Paraná, outra vez, se projeta no mapa cultural do Brasil como aconteceu quando das obras do centenário, especialmente a Biblioteca e o Teatro Guaíra. Mas isso se faz em prejuízo de um assunto verdadeiramente estratégico, a conclusão do Contorno, e com uma indelicadeza ao Judiciário que está sendo obrigado a usar prédios inadequados para receber as varas cíveis e criminais e o Tribunal de Alçada.
Enquanto o ''olho'' genial de Niemeyer empolga, os desembargadores, desolados, olham, do seu improvisado Palácio da Justiça, o cadáver insepulto do Fórum.
BIZARRICE Se a saída do governo Lerner lembrar a bagunça que foi o processo de montagem das primeiras exposições do Museu corre o risco de ficar ainda sob mais suspeitas do que as já conhecidas, e as presumidas, e, ainda por cima, lembrar o azáfama ridículo da retirada dos ianques do Vietnã.
GLOSA Milhões de dólares despendidos em Guaraqueçaba em favor de projetos ambientais quando o caiçara da região é um subnutrido, minado pela verminose e sem nenhum apoio. É um caso de simetria filosófica do governo que sai: essa é a sua escala de valores, a sua axiologia, seu descompromisso com a realidade.





