LUIZ GERALDO MAZZA - Haja símbolos
Como a hora ainda é de mostrar intenções mais do que obras e projetos nossos governantes se adestram nas artes da semiologia, a ciência dos signos, dos sinais, dos símbolos. A viagem de Lula aos bolsões de pobreza, levando uma caríssima e aparatosa comitiva de ministros, é uma expressão do momento. Para motivar políticos, a sociedade, agentes sociais e voluntariado no objetivo da Fome Zero apela-se para as alegorias.
Até agora, porém, não consta que as pessoas deixassem de morrer ou padecer de fome, em que pese a mobilização toda. Mas morrem com esperança e os que estão com fome podem até ganhar moratória, imaginando o cheiro e o gosto da comida que logo virá.
Aqui também os símbolos são dominantes na cena: o governador acumulando a pasta da Segurança teria maior motivação do que o alegórico totem que Lerner botou nas ruas para dar a impressão à população de que é protegida. Símbolo tem essa vantagem, pois a sua subjetividade não permite mensuração. Como saber os efeitos inibitórios do totem e do ato do governador Requião são mais difíceis do que decifrar a Pedra da Roseta e desatar o Nó Górdio fica valendo a intenção.
Ontem, no Bigorrilho, bairro residencial do governador, um cidadão reagiu a um assalto matando um dos ladrões e ferindo outro, mas também levando um tiro no peito. O fato se deu perto, portanto, e ao mesmo tempo, da residência da autoridade máxima do Estado e da hierarquia delegada, o secretário. Essa observação obviamente é também simbólica.
Outras simbologias: o governador atual, elegantemente, oferece ao antecessor o Chapéu Pensador para ali sediar a representação da União Internacional dos Arquitetos que dirige; mas, descompensando, transfere a Secretaria da Cultura ao NovoMuseu, o que conota uma aguda dose de crítica. Todavia os símbolos persistem e dentro em breve Requião vai providenciar a remoção dos alambrados que Lerner e Taniguchi colocaram no Centro Cívico. Top-Top, como o demonstrava a caricatura do fradinho do Henfil, batendo a palma da mão direita na esquerda fechadinha como um caramujo, é também símbolo puro. Estamos todos top-top.
BIZARRICE Vai aumentar a mortalidade por IPTU no País: o contribuinte entra em óbito ao identificar o débito. Curitiba vai ser modelo aí também. Afinal ela, mais do que as outras, é a ''Capital Social''.
AXIOMA Agora só falta o Ministério Público enquadrar o governador Roberto Requião por acúmulo irregular de cargos e funções.
GLOSA Por falar em ''banda podre'' da polícia o jeito mais eficiente de deixá-la preocupada e em pânico seria botar um promotor de Justiça na Segurança.
EPIGRAMA Claro que tem sentido uma comitiva de trinta ministros para ver a fome de perto desde que quando forem aos símbolos da riqueza haja poucos. Vamos viver, como nunca, sob o signo da metáfora. Decodificá-las pode acabar se transformando em rendosa profissão, campo de consultorias.
FOLCLORE Quando for desencadeada a operação ''Mãos Limpas'', já anunciada pelo Judiciário como combate ao crime organizado, seria incrível, por exemplo, que houvesse, por falha da Sanepar outra vez, falta de água. Seria impossível haver mãos limpas.
CROMO Pinga uma estrela ou meteorito na escuridão do firmamento.
AFORÍSTICO Houve um bloqueio de pedágio em Cascavel durante quatro horas. A PM foi chamada a atuar, mas aí o governador deu ordem para que ela não fizesse a intervenção. Pergunta: como negar a uma ordem simultânea do governador e do secretário de Segurança que são a mesma pessoa, ainda mais quando mantém o mesmo ponto de vista?
VINHETA Se a Secretaria da Cultura nada fizer no governo atual ainda assim terá função importante - a de ''ilustrar'' o NovoMuseu.
SCAPS Extinta a fome nos meios pobres não haverá, por acaso, mais filhos nos ranchos, favelas, mocambos, palafitas? Uma orientação sobre controle da natalidade serviria bem como complemento.





