Costuma-se timbrar uma das características do paranaense na autofagia. É mais um clichê, um arquétipo, dentre tantos que a sociologia de bolso engendra. De uma certa forma uma dosagem de autofagia numa sociedade quase confessional em relação ao Estado e ao ocupante do poder de plantão é até saudável. Se houvesse um pouco mais de conflito interno e contestações seria ótimo, não apenas em relação ao governo, mas especificamente às entidades representativas dos meios empresariais ou de trabalhadores.
  Aliás, o ocorrido com a Fiep é uma prova dessa inabilitação das organizações para fugirem à atração gravitacional em torno do poder político: bastou Requião mostrar interesse em eleger Rocha Loures e foi o suficiente para que o Carvalhinho, sempre cioso das suas posições, tirasse o time de campo e se criasse uma convergência em torno da postulação hegemônica. Em São Paulo, apesar também das aproximações com o poder federal e estadual, isso seria, de qualquer forma, impensável.
ALEX & O MUSEU   Aqui nós malhamos impiedosamente os nossos valores. Isso se deu com Alex Beltrão por causa dos problemas havidos no Museu Oscar Niemeyer e com a empresa terceirizada. De repente a contribuição, importantíssima, de Alex para o Paraná, o Brasil e até para a cafeicultura mundial desapareceu como se não constasse da alentada biografia outra coisa que não fosse a suspeita em torno de uma questão, ainda obscura, mas de fato perturbadora. Ainda que estranhando o factual da denúncia feita fiz a observação de que o ciclo dessa existência, tão relevante na história do planejamento no Paraná, estivesse se fechando de forma paradoxal, já que nos anos 60 Alex Beltrão foi elemento-chave na formulação das ações do governo Ney Braga e em planejamento global e setorial como respaldo para a parte operacional da Companhia de Desenvolvimento Econômico do Paraná, a Codepar, que se transformaria em Badep e que Alvaro Dias fecharia. Ironizei com o fato de dedicar-se como estrategista a um objetivo hedonístico, voltado a um tipo de fruição bem distante do seu empenho de organizador.
CONDECORAÇÃO   Pois agora Alex, que viajou na comitiva presidencial à Colômbia, mereceu a condecoração da Ordem da Gran Cruz (prata) de Boyacá das mãos do presidente Alvaro Uribe pelos 27 anos de serviço que prestou à Organização Internacional do Café, OIC, como seu secretário, em Londres. Em Cartagena, Alex Beltrão, tinha uma folha de serviços de caráter internacional, voltada, também, para interesses da América Latina, o que favorece a diplomacia da gestão atual, em etapa ousadíssima, disposta até, pela palavra de Lula, em negociar com as Farc, a guerrilha colombiana em busca de novos parâmetros de convivência naquele país.
  No Paraná é possível que amanhã um de seus filhos ganhe um prêmio científico ou cultural e a reação da maledicência se preste a caricaturá-lo para lembrar que, quando criança, costumava roubar (recolutar) no jogo de bolinha de gude ou ainda que tinha um perfil efeminado quando fazia, nu, abluções no Rio Barigüi. Aí com aquele ar de quem não está dizendo nada ou dominado pela imprecisão arrematava que, além de tudo, o tal cientista tinha o jeitinho de quem tira água da bacia. ‘‘Não tenho certeza, mas que leva jeito, isso leva.’’

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