LUIZ GERALDO MAZZA - Fóruns antinômicos
Há dois fóruns mundiais, com perspectivas distintas, para a globalização: o ''social'' de Porto Alegre e o ''econômico'' de Davos. Essa dicotomia entre o ''social'' e o ''econômico'' é uma fonte permanente de equívocos. Não se pode isolar, de forma radical, os dois vetores. Da mesma forma que não se deve apenas cuidar do econômico, tal qual vem ocorrendo no Brasil, também não se pode atender apenas o ''social'' como ocorre em Cuba. Seus indicadores sociais são insuficientes para compensar a crise econômica, notadamente depois que a derrama sistemática de dinheiro soviético deixou de ocorrer.
A deformação decorre simplesmente da ideologia: sociedades assimétricas são inundadas de discursos e propostas de ênfase no social que acabam não acontecendo. É o caso da Venezuela, quinta potência petrolífera, mas que tem 80% de pobres. É em cima deles e da remota possibilidade de integrá-los que funciona o discurso de Chavez, agudamente populista e como sempre com um tom primário ao estilo latino-americano. O Fome Zero, bem sacado, é também uma intenção e um discurso. Que pode se transformar em idéia-força, desde que pasteurizado do melodramatismo e da pieguice.
BURLA CAPITALISTA Uma das falsetas do capitalismo é centrada na idéia de que o desenvolvimento econômico, por sua capacidade de liberar forças deprimidas, é suficiente para reduzir níveis de pobreza. Doutrinadores, que lançaram os fundamentos ideológicos do planejamento no Paraná, tiveram a visão interativa desse processo como seguidores fiéis do padre Lebret. Aliás, permeia todo o Brasil a semeadura dos seus discípulos que na Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais cuidavam de propor saídas para essas questões.
Lembro claramente que no Plano feito pela instituição para o governo Ney Braga, e isso às vésperas do golpe, apontava-se para a criação de duas coordenadorias como empenhadas no esforço interativo: um comitê de mobilização social e outro de mobilização econômica. No ''social'' lá estavam as pastas de Educação, Cultura, Saúde, Segurança; no ''econômico'' apareciam os bancos estatais então existentes (Badep, Banestado, BRDE), a pasta fazendária etc. Na verdade toda a ação econômica acaba tendo repercussão no social, mas nem sempre na intensidade e profundidade exigida.
SUJEITO DA HISTÓRIA A filosofia lebretista, pelo menos na perspectiva dos seus aplicadores, era claramente intervencionista, sem cair no voluntarismo, todavia não dispensando a fonte de energia das lideranças e da busca de utopias. Desprezava a idéia, essa hoje vitoriosa, de que o mercado e sua lógica são suficientes para ditar os acontecimentos. Apostava na formação de lideranças e na dinâmica dos chamados ''entes intermediários'' entre o Estado e o Cidadão muito referidos naquele tempo nas encíclicas de João XXIII.
Numa ocasião, a atual secretária de Planejamento, Eleonora Fruet, então como presidente do Conselho Regional de Economistas, trouxe a Curitiba o hoje ministro da Educação Cristovam Buarque para uma palestra na qual funcionei como mediador ao lado do então presidente da Associação Comercial do Paraná, Werner Schrappe. Numa das intervenções fiz referências às ações de Lebret em trabalhos de campo e nas ações doutrinárias quer na Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai ou em trabalhos como o de elaboração do Plano Trienal de Ney Braga. Muitas da proposições foram prejudicadas pelo golpe militar, pois uma das duas diretrizes era a da alfabetização massiva pelo método Paulo Freire. Buarque era um conhecedor do Movimento de Economia e Humanismo e ficou agradavelmente surpreso com alguns dos enfoques lebretianos lançados em nosso processo de desenvolvimento regional.
Das muitas tentativas de interação radical entre ''econômico'' e ''social'', desde os primórdios das lutas sociais e do socialismo, aí se incluindo também alguns de raiz liberal, essa é relevante lembrar no esforço da humanidade para a busca do desenvolvimento harmônico das suas potencialidades. O homem como sujeito da história e não como objeto do mercado é a chave do ideário.





