Quando da invasão do Carandiru, todos sabem, houve uma pesquisa junto aos paulistas que apoiaram, em mais de 80%, o bárbaro massacre. E naqueles dias a anomia no país não chegara à barbárie de hoje com o desafio do narcotráfico e suas falanges operando nas penitenciárias.
Há na maioria das pessoas a síndrome do linchamento, a lei bárbara que era muito comum nos Esteites nos tempos do faroeste e que hoje é uma regra em cidades como Curitiba e Londrina, especialmente nos fins de semana. São os marginais do crime organizado nas execuções fazendo cobranças de dívidas de vendedores ou viciados em droga ou daqueles que não dividiram o botim.
É nesse clima, pois se trata de algo abrangente e condicionante, que vimos o desenrolar da novela do caso Copel em cima da operação com créditos de ICMS. O que apressou o andamento foi a divulgação da imagem das pessoas flagradas pelas câmeras internas do Banco do Brasil no ''Fantástico''. Com a liberação dos três presos e da cassação dos mandados de prisão contra os demais, entre eles o Ingo Hubert, ex-secretário da Fazenda e ex-presidente da Copel, há uma espécie de frustração, embora isso não signifique que o processo instaurado tenha se esgotado. Ocorre, porém, que saciar a multidão, irritada com a norma de impunidade e que não sabe o que fazer para proteger-se da violência, da demanda de emoções não é fácil. É a sociedade do espetáculo em ação.
O ideal é que ações desse tipo seguissem padrões de sobriedade. Mas a ânsia de ver bacanas na cadeia é uma espécie de compensação coletiva, pois é sabido que a maioria da população é explorada e vê as suas perspectivas, cada vez mais, se estreitarem. Quando um prefeito é algemado e preso o que normalmente é por pouco tempo, como se deu com Belinati há um ''frisson''. Raramente tal se dá com um presidente ou um ministro, como se vê na Europa e Japão. O clima psicossocial é de alto risco e não favorece a busca da Justiça.
ANTECEDENTES Na história recente do Paraná tivemos no governo Alvaro Dias, que sempre apostou no ''marketing'' da moralidade, prisões de dezenas de pessoas sob a acusação de improbidade: barulho demais por nada, já que ninguém foi condenado. Mas a forma como se processou a divulgação dos eventos, tal a certeza da condenação, deixou o público decepcionado com a Justiça, já que se encontrava induzido pelas informações divulgadas.
Houve também a série de acusações contra o Banco del Parana, incluindo a do cisne negro dado como presente, que também deu em nada e assim por diante. E num dia de extrema irritação com o Judiciário porque advogados habilidosos conseguiram liberar um dinheiro sob custódia do Badep, Alvaro veio à cena para teatralmente dizer que os juízes que haviam autorizado a operação, dentre eles um desembargador, deveriam usar uniformes zebrados de presidiários e, em hipótese alguma, as vestes talares da justiça. A reação do Judiciário foi débil como seria também, pouco depois, quando, acuado pelo governador Requião, sofria campanha de hostilidade pela televisão.
Em 1961, governo Ney Braga, o secretário de Justiça, Rubens Requião, quase transformado no Inspetor Javert, aprontou várias contra Lupion, a que já me referi. Uma delas incrível: uma tropa da Polícia Militar, numa diligência denominada ''Operação Jagunço'' prendeu agrimensores ligados às companhias de terras em Cascavel. Lembro do nome de dois: Marins Bello e Mario Coquieri. As imagens da tevê, as catilinárias nos jornais, reacumulavam carga emocional e horas depois o Tribunal de Justiça concedia os ''habeas corpus''.
LAVA-RÁPIDO Seria ideal que a cada governo se submetesse o anterior a uma espécie de lava-rápido. Sem conflito nada evolui. Como não há a mídia investigativa (e o caso Copel é exemplar) e nem oposição alerta e muito menos a tal sociedade participativa e organizada temos que nos render às versões oficiais, sejam as do governo de plantão ou as da polícia ou Ministério Público. E ao lado agora do empenho dos zelosos promotores temos uma questão doutrinária, na qual a categoria se empenha nacionalmente: a de derrubar o foro privilegiado para os crimes de improbidade, batalha difícil mas, de certa forma, no seu entender, necessária à saúde institucional do País.

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