A aposta que todos faziam em relação à China como parceiro comercial está se diluindo. E isso apesar da recente missão presidencial àquele país e de todo o aparato analítico que se seguiu, como sempre enchendo a bola da iniciativa do Brasil como capaz até de alterar o equilíbrio geopolítico a partir dos tidos como estruturas em desenvolvimento.
O mais grave é que o ocorrido se deu quando maior era o triunfalismo e o sinal de euforia com a visita de Lula, seus ministros e empresários. Perda de US$ 1 bilhão teria decorrido da rejeição da soja contaminada com todo o ritual daí decorrente como a devolução da carga e as providências indenizatórias e o inevitável baque no mercado internacional. Percebe-se que aí há uma jogada tática para fazer baixar o preço do produto e facilitar negociações que o consolidem. Critérios de classificação, rigorosíssimos e mais exigentes do que os de padronagem internacional mostram que há outras formas de barreiras bem mais eficientes do que as alfandegárias, estas normalmente usadas pelos norte-americanos.
Vejam como são as coisas: enquanto festejávamos um clima de lua de mel com a China, eles, com o peso de sua força, nos impunham uma adversidade difícil de contornar. É uma outra dimensão do poder de barganha do consumidor em escala internacional. Nós quase sempre nos queixamos e essa é a ladainha número um do Leonel Brizola da tal da ''deterioração das relações de troca'' ou, no dizer do caudilho, as ''perdas internacionais''. Referia-se à desigualdade do industrializado em relação ao produtor de matéria-prima nessas relações, o que não deixa de ter seus fundamentos, e que animava a doutrinação da Comissão Econômica para América Latina, Cepal, de Raul Prebisch e Celso Furtado.
No momento em que o agronegócio é a garantia do superávit na balança, esse rigor da China pode aguar o nosso chope. Ela pretende ir além dos parâmetros de certificação, tidos como rigorosos, aceitos internacionalmente, de quatro grãos de sementes em um quilo da leguminosa.
O assunto é da maior gravidade quando se sabe que dentre as cargas interditadas estão algumas de multinacionais que operam com extrema desenvoltura no mercado, como a Cargill. Será que a ''cultura'' nacional da desídia, desprezo a normas legais, sanitárias por exemplo, de tolerância enfim, estaria no fundo dessa questão e que teria levado as transnacionais a entrarem no ''jeitinho'', ou estaríamos diante de uma incompetência institucional para que o governo pudesse garantir e certificar seus produtos de exportação?
BIZARRICE Mais de 80% da população de São José dos Pinhais não aceita que se instale na região um centro de detenção provisória. Essa vizinhança é negada por causa do quadro nacional e da desordem no sistema.
AXIOMA As pessoas querem segurança, mas sem cadeia por perto, porque bandido preso é mais forte do que a polícia, o crime organizado em ação.
GLOSA Pesquisas eleitorais e planilha de tarifas são esoterismo puro.
EPIGRAMA Enquanto o governo delirava com as supostas vantagens da missão à China (Lula dizia que o país era um ''shopping'') os chineses fizeram a soja, por causa da questão da contaminação dos grãos, cair no mundo inteiro em US$ 50 por tonelada. Um prejuízo para o Brasil de U$ 1 bilhão.
FOLCLORE O presidente Lula admitiu que há ''amadores'' e ''profissionais'' em sua equipe de governo. A frase parece um ''teaser'' para o livro do mestre Belmiro Valverde ''O Brasil não é para amadores'' e que deve sair esta semana em segunda edição atualizada, depois de uma delas, em inglês, circular nos meios acadêmicos dos ''esteites''.

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