LUIZ GERALDO MAZZA - Ainda a identidade
Nesta semana, o Brasil perdeu o compositor José Duduca de Moraes, 90 anos, autor da valsa Minas Gerais, adaptada da Viene Sul Mare há 60 anos, uma espécie de hino não oficial dos mineiros. Cada região brasileira constrói a sua identidade através da sua economia, da geografia física e humana, enfim de sua cultura. A mineiridade é uma das expressões nacionais, apesar de os seus intelectuais contemporâneos em maioria terem migrado para o Rio, como os casos de Drummond de Andrade, Pedro Nava, Otto Lara Rezende, Darci Ribeiro, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino entre tantos.
Essa notícia da morte do Duduca de Moraes me levou de novo a um tema quase obsessivo, a questão da identidade cultural paranaense, multifacetada e difusa pela circunstância de nos três Paranás (o do norte de paulistas e mineiros em maioria mas também de baianos e capixabas; o tradicional do sul e os de gaúchos e catarinenses no oeste-sudoeste) haver a riqueza de tantas gentes, incluindo a das etnias que nos revelam como sociedade aberta. Fiquei matutando em torno de músicas que nos identificassem, como os mineiros têm, além da já referida, embora uma glosa, como a do Peixe Vivo que ouvi o filólogo Ayres da Matta Machado cantar enquanto discursava num congresso de antropologia nas celebrações do Centenário em 1953.
Obviamente haveremos de encontrar muitas contribuições, mas como é preciso que tenham um toque cosmopolita, decorrente do seu conhecimento em nível nacional, sempre entendi que a marcha-rancho Estão voltando as flores do parnanguara Paulinho Soledade, hoje servindo de elo de ligação para as campanhas em favor do Hospital de Clínicas, como essa referência, não só pela beleza do ritmo como pela mensagem de esperança. O salto que o Paraná deu na última década, aliás uma seqüência natural de processo civilizatório, e a proximidade do sesquicentenário da província, justificariam uma avaliação dessa sugestão.
A história da criação é uma espécie de catarse do autor, que padecia de tuberculose e, depois de um repouso em Porto Amazonas, ao saber nos exames que estava curado, viu numa das praças principais de Curitiba os ipês dourados do ciclo primaveril. Aí nasceu Vê estão voltando as flores// Vê nesta manhã tão linda// Vê como é bonita a vida// Vê há esperança ainda//.
Ninguém se empenhou tanto em definir o Paraná culturalmente como Bento Munhoz da Rocha Neto. Ele dizia que éramos uma síntese do Brasil, embora tanto quanto São Paulo, nosso olho do furacão e empolgava-se justamente com o amálgama de brasileiros de todas as regiões e de grupos étnicos que dariam a linha da visão de Wilson Martins do chamado Brasil Diferente.
Não poucas vezes me vali de metáfora para tratar dessa questão da identidade no paranaense diante de um espelho e sem imagem definida, multifacetada. Acho que mais abordagens sobre o tema seriam pertinentes quando chegamos à marca dos 150 anos.
AFORÍSTICO Pessoas que estavam fora de circulação voltaram, entusiasmados, como se saíssem de uma sauna, com a credencial histórica de ex-auxiliares de Roberto Requião prefeito e governador. Assim palmilha a humanidade. Razão, aliás, dos cuidados do governador eleito para evitar assédios, já que uma minoria tem méritos, mas não se pode dizer o mesmo da maioria.
ANALOGIA É perceptível entre intelectuais críticos de FHC (nem todos) um travo de inveja. Isso pode se dar entre Lula também e aqueles sindicalistas que se acreditam vetores da história e que sem eles a bichinha não anda.
VOYEURISMO Nas reportagens da Globo, inclusive aquela mais recente da idosa torturada pela empregada, fica nítido que há um olho que não é nem o do Oscar Niemeyer e muito menos um dos múltiplos do Doutor Mabuse a nos espreitar. É marca do nosso tempo e uma espécie de impressão digital da espetacularização.





