LUIZ GERALDO MAZZA - A tragédia anunciada
Segundo o próprio Padre Roque, negociador do governo na questão da terra, os invasores das fazendas em Rio Bonito do Iguaçu chegarão ao número excepcional de 2,6 mil famílias. Essa afirmação foi feita ontem na CBN Curitiba com a maior e mais clássica das tranqüilidades por se tratar de um movimento de excluídos e que carece de Justiça e continuará existindo.
É muito fácil aos agentes políticos manter as utopias dos movimentos sociais sem fazer qualquer alertamento não só dos riscos que correm como especialmente mostrar que o governo federal não tem os recursos para compra de terras pedido por Roberto Requião como também o Estado, na ausência desses valores, fazer algo de prático pelos sem-terra.
Até quando poderão os governos federal e estaduais tolerar esse estado de coisas na hipótese de o Judiciário exigir o cumprimento dos despejos? Ora é visível que quanto maior a massa concentrada, tal como José Rainha pretende com o mega-acampamento do Pontal do Paranapanema, mais difícil será o ato de remoção desse pessoal que reclama todos os cuidados para atendimento à saúde e especialmente o transporte. Isso amarra, imobiliza, qualquer ação.
Tivemos no passado situações sangrentas na terra com a revolta de Porecatu no início dos anos 50 e a do sudoeste no fim dessa década. A primeira não mudou o caráter meio feudal da agroindústria lá implantada, no sentido de ela ser o fundamento da economia local, e na segunda nada impediu que muitos dos posseiros, transformados em agricultores, acabassem nas fileiras do MST, hoje na condição de excluídos, isso sem falar nas graves conseqüências ambientais com o partilhamento da terra e a compulsão pelas derrubadas florestais.
O quadro é delicado e a qualquer momento pode haver uma ruptura desse estágio hibernado de conversações às vezes rompidas por ameaças de retaliação. Tem a delicadeza de uma casca de ovo a sofrer ruptura na primeira provocação mais forte e que sirva à dramatização. É a óbvia profecia da tragédia anunciada.
CORTEJAMENTO Uma das seqüelas culturais do populismo no Brasil (Getúlio, Jânio Quadros e Collor) está presente na insistência com que a classe política se esmera em cortejar multidões sem examinar as conseqüências do gesto. Com as raízes efetivamente populares de Lula, até porque nutridas pelo bom combate do sindicalismo e da pressão cidadã, esperava-se que houvesse alguma resistência a essa vocação histórica, mas as circunstâncias do momento indicam que acabará reproduzindo o mau hábito.
Ao colocar, com rigor, o problema da previdência e até ameaçando ir às últimas conseqüências no combate aos resistentes dá uma sinalização de austeridade pelo menos em relação específica aos funcionários federais. Tirou da CUT um dirigente ligado a essa corporação e botou em seu lugar um colega metalúrgico. Essa disposição o incompatibilizará com a magistratura e com todo o estamento dos barnabés federais, estaduais e municipais. É a exceção. No mais o cortejamento persiste como no caso do MST, por exemplo.





