LUIZ GERALDO MAZZA - A glória da delação
Um funcionário exemplar, de carreira, é nominalmente citado pelo governo Requião como desidioso por não ter dado o ritmo desejado pela fúria oficial em relação a procedimentos administrativos que contestam as bulas de produtos da Monsanto e da Basf. Sem qualquer investigação que o justificasse já se passou à denúncia de que o referido servidor atuara de forma suspeita e em trabalho de ''engavetamento'' do procedimento esperado.
O vice-governador e secretário da Agricultura, Orlando Pessuti, não confirmou as afirmações da cúpula sobre o servidor que trabalha à sua disposição e com a honestidade e o equilíbrio, que o caracterizam, em meio a um espírito de turba, que configura, de forma geral, o sistema, fez a defesa do funcionário, vítima daquele mesmo clima de 1964, centrado na glória dos que delatam e se mostram engajados na linha da única fonte de verdade e luz, o governo.
Como nos figurinos fascistas, cria-se o clima interno do engajamento cego nas causas que o Supremo Chefe comanda, ainda que nenhuma delas tenha sido, em qualquer tempo, alvo de uma avaliação em profundidade em que não apenas o ponto de vista oficial prevalecesse. Daí a postura de pânico, que atinge a todos que pretendem expor qualquer ponto de vista, ainda mais quando não se conhece o juízo de valor da autoridade maior sobre o assunto. É impossível a prática da inteligência, que implica no respeito à diversidade e no exercício permanente da reflexão, em tal atmosfera. A forma desrespeitosa como o comando se refere aos seus auxiliares, humilhando-os publicamente, tratando-os como se fossem peralvilhos de colégios religiosos apanhados em falta e submetidos às penitências de rezas sobre milho, impõe a regra da obediência e qualquer sinal em contrário é olhado como prevaricação.
Hiatos de autoritarismo em meio a um processo de avanços democráticos e até de transbordamentos que fogem à regra do jogo institucional, mas servem de contraponto para a busca do equilíbrio perdido, são comuns. Aliás no Brasil temos vivido mais autoritarismo, especialmente o nutrido por essa praga irremovível do populismo, do que democracia. Na medida, porém, em que a palavra do vice-governador aparece em defesa do funcionário exemplar e acusado injustamente há um sinal de esperança de que pelo menos a unanimidade, que sempre é burra no dizer de Nelson Rodrigues, não se imponha, totalitariamente.
BIZARRICE A repórter desta ''Folha'' tentou inutilmente conhecer o contrato entre a Prefeitura de Curitiba e a Cavo para melhor situar-se na questão da greve dos garis. Havia outra greve, essa institucional, a da ''caixa-preta'' em relação ao assunto como também prevalece nos transportes coletivos e nos pardais eletrônicos, o chuncho ratificado pelo Detran, alvo de decisões judiciais que o consideram totalitário e ilegal na indústria das multas.
AXIOMA - Se golpearem o André Vargas na eleição legislativa se poderá falar em surpresa ou estaremos diante do acidente de percurso esperado?
GLOSA - A Embrapa (que teve em Ponta Grossa a fazenda modelo invadida pelo MST) vai produzir três variedades de soja transgênica, feito científico de máxima seriedade. Aí, não sendo da Monsanto, estaria liberada por aqui?
FOLCLORE - Ao dizer que a reforma agrária não se fará no grito, segundo o João Pedro Stédille, Lula não estaria se referindo ao MST mas aos latifundiários improdutivos. Subverter o raciocínio é tão fácil quanto fazê-lo com a ordem.
CROMO - A chuva engorda o rio, mesmo depois de condenado à anorexia.
AFORÍSTICO - Enfim, quando menos se esperar, o governo começa a governar.





