Embora estivesse disposto a fazer de seu mandato para o Senado uma plataforma para o governo do Distrito Federal e daí para a Presidência da República, o senador Luiz Estevão (PMDB-DF) nunca demonstrou habilidade para exercer a política. Seus erros ficaram patentes sobretudo no Senado, onde chegou com 460 mil votos e deverá sair cassado com poucos colegas a seu lado. O primeiro passo para suspender os direitos de Estevão se candidatar pelos próximos 14 anos – 6 do atual mandato mais os 8 determinados pela lei – ocorreu na última quarta-feira, quando o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar aceitou o pedido para dar prosseguimento ao processo de perda de seu mandato.
Hoje, o senador Romeu Tuma (PFL-SP) vai apresentar um parecer na CCJ favorável ao encaminhamento do processo para o plenário. A votação da cassação deve ocorrer no dia 29.
Na Câmara Distrital, Estevão mandou e desmandou, ocupando a presidência no primeiro mandato. Ele podia até contar com uma bancada própria, formada por deputados eleitos com a sua ajuda financeira. Seu trato com os adversários era pior possível, com ameaças e tentativa de intimidá-los.
Numa entrevista antes de assumir o mandato no Senado, Estevão reconheceu a necessidade de mudar sua postura, mas não conseguiu: ‘‘No Senado, eu sei, ninguém muda as regras do jogo. A eficiência está em jogar com as regras que já existem.’’ Mais adiante, o recém-eleito senador prometia agradar a seus eleitores. ‘‘O que eu posso dizer é que a cada dia eu tentarei ser o melhor. O melhor no sentido de que cada dia eu tentarei corresponder à expectativa que o eleitor depositou em mim.’’ No início do mandato, discreto, ele relatou a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) deste ano.
Mas ele retomou o temperamento agressivo e arrogante logo que começaram a aparecer as primeiras denúncias sobre o seu envolvimento no esquema que desviou R$ 169 milhões do R$ 263 milhões destinados às obras do Fórum Trabalhista de São Paulo. Mais tarde, a CPI do Judiciário constatou que suas empresas receberam US$ 35 milhões dos desvios.
Diante das denúncias, Estevão passou a pressionar funcionários do Senado e a constranger seus colegas senadores, muitas vezes tentando criar uma proximidade que não existia. ‘‘O que me impressionou desde o início foi a maneira prepotente como ele se defendia das acusações’’, lembrou um senador. ‘‘No lugar dele, outro homem teria ficado arrasado.’’
A pergunta que se faz hoje é se o processo de cassação existiria se ele tivesse mostrado mais habilidade no trato com os colegas. A resposta é sim, pela gravidade das denúncias e pela reação da sociedade em cobrar de seus representantes no Congresso mais moralidade na vida pública. Mas é certo que, ainda assim, ele teria mais colegas a seu lado do que ocorre hoje. Luiz Estevão foi um dos avalistas da Operação Uruguai, no valor de US$ 5 milhões, pela qual o ex-presidente Fernando Collor tentou justificar o dinheiro que custeava seus gastos.
Luiz Estevão tem 51 anos, é carioca, casado, pai de seis filhos, ficou órfão de mãe ao nascer – ela morreu no parto – e de pai aos 16 anos, quando foi ‘‘adotado’’ pelos tios Lino e Marita Martins, socialite de Brasília. A origem da fortuna, de US$ 350 milhões, é suspeita. Hoje, suas empresas se estendem pelos mais variados negócios.
Até quem não gosta dele é obrigado a reconhecer sua inteligência e a facilidade de se expressar, mesmo quando se defende com argumentos contestados por provas irrefutáveis. Mas decididamente, ele não conseguiu obter a presteza no trato que se espera de um político.
Esta é a primeira vez que o Senado julga um parlamentar por falta de decoro. Não foi aberto processo nem mesmo em 1963, quando o senador Arnon de Mello (UDN-AL), pai do ex-presidente Collor, matou em plenário o colega José Klarallah (PSD-AC). Arnon pretendia atingir com os tiros que disparou o desafeto Silvestre Péricles de Monteiro, mas errou.

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