LUIS GERALDO MAZZA
Delatar e deletar
Palavras são parecidas na aparência, porém de sentido agudamente diverso: em tempo de delação premiada também há o risco da deletação conveniente, isso é a preocupação de apagar dados que possam ser comprometedores no computador. Pois ontem houve movimentação na área da Lava Jato por causa de um bilhete com ordens para deletar informes armazenados na Odebrecht em torno de sondas. O advogado da megaempreiteira cumpriu o seu papel de explicar a versão dela.
Mas, tenha havido ou não o evento, aquela preocupação em manter pessoas no cárcere se justifica no risco de haver ações no sentido de ocultar provas, como sempre alega o Ministério Público. Pode até ser excesso de zelo, mas é preocupação elementar de traço preventivo. Tanto na Lava Jato como no episódio menos complexo da fraude fiscal, operação Publicano, a liberdade de acusados deixa o sistema de coleta de novas provas sob ameaça como também o uso de outras artimanhas e o poder de auditores não pode ser subestimado ainda mais quando sua atuação desvirtuada encontra mediadores do meio político, gente do tráfico de influência ainda mais quando aparentam relacionamento próximo com a autoridade. Se um mero portador de cargo em comissão exibe em rede social uma intimidade com o poder, obviamente exagerada, dá para imaginar o quanto pode haver de patologia no processo que parta de um hierarca fiscal. É um servidor público, dotado de confiabilidade, como a de um delegado de polícia.
O governador Beto Richa fez o que devia ao afastar das funções de auditor os envolvidos no processo, era afinal o que lhe cabia providenciar no âmbito administrativo, incluindo aquele que era companheiro de incursões no automobilismo. Boa também a exclusão do nome da primeira-dama feita em anônima denúncia por parte do delator-chave, que afinal por essa contingência aparenta dizer verdades inquestionáveis. Interessante igualmente, como se dá na Lava Jato, a assimetria de depoimentos, em acareação, entre Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa. A senadora Gleisi Hoffmann, denunciada por favorecimento em campanha eleitoral, valeu-se dessa variedade de versões para indicar a falha do depoimento que pode, lá na frente, ensejar nulidades como desejam os advogados dos indiciados.
O fato é que esse conflito entre os dois depoentes quebra a linearidade até aqui observada no processo e gera dúvidas, o que não é de todo mal porque uma consequência natural do contraditório. Resumindo, delatar é uma coisa e deletar outra.
Chuncho
Justiça afastou três servidores do Tribunal de Contas por participação na aventura da licitação do novo anexo. Isso vai longe e promete surpresas.
Choque
Apesar de todos os cuidados preventivos com as chamadas UPAs, Unidades de Pronto Atendimento, ontem uma senhora morreu, aguardando consulta, lá na instalação da Fazendinha. Prefeitura anunciou rigoroso inquérito, mas isso mostra a vulnerabilidade do sistema. Aliás, Curitiba é um mundo cão: uma moradora de rua roubou um objeto para ser presa e ter acesso à comida e o fato repicou nas redes sociais. As mediações chegaram em tempo, mas fica bem claro que é falho o sistema de atendimento da Fundação de Ação Social. Vazamento desse porte é intolerável.
24 réus
Operação Ferrari, que desbaratou gangue do tráfico de drogas, boa parte no Paraná, teve nada menos de 24 denunciados. Alguns deles, em condomínio de luxo em Londrina, botavam banca na internet se exibindo da vida farta de sibarita.
Folclore
Justiça anulou 126 cargos em comissão em São José dos Pinhais. Ministério Público apurou, em diligência ao local de trabalho, que havia menos de 25% dos enquadrados no local. Lembra o ocorrido com os Diários Secretos no Legislativo estadual: a prensa da mídia levou fantasmas a comparecerem em massa ao expediente e não havia, obviamente, espaço para todos. A direção da Casa tinha dificuldades em administrar o caos.





