Arquivo FolhaCocarLuiz Eduardo: cacique entra no lugar do índio (Benito Gama)O ex-presidente da Câmara Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA) será o novo líder do governo, em substituição ao deputado Benito Gama, também do PFL baiano. Luís Eduardo entra na liderança para fortalecer o comando político do governo na Câmara e tentar salvar da derrota a emenda constitucional da reforma administrativa. Com a mudança, a votação da reforma deverá ser mais uma vez adiada.
O novo líder assume para coordenar a ação política do governo. Mas o ministro de Assuntos Políticos, Luiz Carlos Santos, vai permanecer no cargo. O Palácio do Planalto não quer mais atritos com o PMDB e a dispensa de Santos certamente tiraria votos de peemedebistas. ‘‘Se o Luiz Carlos conviveu com o trator do Sérgio Motta (ministro das Comunicações) não há por que tirá-lo da mesa das negociações agora’’, resumiu um parlamentar do PMDB que acompanhou a troca de comando da liderança.
Luís Eduardo só não respondeu ontem mesmo ao convite do presidente Fernando Henrique Cardoso porque quer antes o apoio público dos líderes aliados à sua indicação. ‘‘Tenho primeiro que fazer o dever de casa’’, afirmou Luís Eduardo. Ele prometeu responder ao convite de Fernando Henrique até amanhã. ‘‘Vou conversar com os líderes, com o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), e, é claro, com Benito Gama.’’ A troca do líder do governo vinha sendo planejada há quatro meses, desde que o presidente prometera dar ao tucano José Aníbal a cadeira de Benito.
A pressão do PFL impediu a entrega do cargo ao PSDB mas não foi suficiente para evitar o desgaste do líder Benito. Até mesmo os dirigentes do PFL admitiam que estava difícil sustentar o líder no cargo. O enfraquecimento de Benito Gama ocorreu a partir de uma briga com o tucano José Aníbal. Ele acusou publicamente José Aníbal do ‘‘pecado da cobiça’’ por tramar a sua derrubada do cargo de líder.
Na dificuldade de compor as peças da complicada base de sustentação do governo, o único nome que dispensava arranjos políticos era o de Luís Eduardo Magalhães. ‘‘Trata-se da substituição de um índio por um cacique’’, afirmou um ministro de Estado que acompanha o desfecho da crise na base governista. Benito Gama deverá receber um prêmio de consolação: a presidência da Comissão de Relações Exteriores, que o próprio Luís Eduardo deixará vaga para o amigo.
A tentativa de acomodar em postos institucionais os articuladores informais do governo - conhecidos por ‘‘shadow cabinet’’ (gabinete sombra) - fracassou mais uma vez. Parlamentares como Aloysio Nunes Ferreira (PMDB-SP), Moreira Franco (PMDB-RJ), José Aníbal (PSDB-SP) e Roberto Brant (PSDB-MG) perdem a companhia de Luís Eduardo no ‘‘gabinete sombra’’ mas continuarão junto a ele, atuando nos bastidores.
Ao contrário do que imagina o presidente Fernando Henrique, a simples troca de líder não resolverá o problema da base de sustentação do governo. O próprio Luís Eduardo tem afirmado, nas conversas com aliados, que o discurso do Real e da estabilidade, sustentado pelo governo, já se esgotou. Estes articuladores informais querem que o governo estabeleça uma agenda de ações no campo social. A idéia é que o presidente da República anuncie a agenda ‘‘para se reconciliar com a opinião pública’’.
Prova de que o ‘‘gabinete sombra’’ continua em ação foi a visita de um dos seus fundadores - Aloysio Nunes Ferreira - ao Palácio da Alvorada antes da conversa de Fernando Henrique com Luís Eduardo. Foi a primeira conversa do deputado com o presidente depois do desconforto gerado pelo convite para assumir o Ministério da Justiça, que acabou entregue ao goiano Íris Rezende, do PMDB. E logo depois do encontro, Luís Eduardo reuniu parte do ‘‘gabinete’’ para um almoço - Aloysio e Moreira Franco.

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