LUCIA HIPPOLITO
O novo salário mínimo foi decidido em reunião entre o governo Lula e as centrais sindicais. O Executivo vai enviá-lo ao Congresso para aprovação. Mais uma vez o governo privilegia interlocutores fora do Congresso Nacional. Ora é o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, ora os movimentos sociais. Mas sempre as centrais sindicais. As centrais são o verdadeiro partido político de Lula.
Quanto ao Congresso Nacional, está definitivamente confirmado como mero carimbador de decisões que vêm do Planalto como prato feito.
Este comportamento do governo Lula se repete há tempos. Em 2007, quando o Congresso recusou o valor do salário mínimo proposto pelo Executivo, o presidente alegou que os valores tinham sido acertados com as centrais em dezembro de 2006. Mas Lula esqueceu de combinar com o Congresso, foro constitucionalmente encarregado da elaboração das leis. E o aumento do salário mínimo tem que ser feito por lei.
Em seguida, o Congresso tentou acabar com o imposto sindical obrigatório. As centrais argumentaram que o assunto tinha sido acertado com o governo. Mais uma vez, esqueceram de combinar com o Congresso, que estava votando a lei de regulamentação das centrais sindicais.
Então, chegou a vez da reforma tributária. O governo mostrou as linhas gerais do projeto aos líderes da base aliada, mas antes mesmo de discutir com governadores, empresários e Congresso, Lula discutiu pessoalmente com as centrais sindicais.
Os presidentes das centrais exigiram que o governo modificasse o projeto, e o governo aceitou. Nada contra o governo Lula cortejar as centrais sindicais. Afinal, Lula começou sua vida como líder sindical, seu governo conta com mais de 240 sindicalistas em ministérios, secretarias, conselhos de estatais etc.
Mas há assuntos que são de natureza política, e o foro político adequado para discuti-los é o Congresso Nacional. Podemos fazer restrições à maioria dos parlamentares, mas num governo democrático digno do nome, o foro adequado para se aprovar decisões políticas é o Congresso Nacional.
O presidente Lula já demonstrou que não gosta de articulações políticas, não sabe fazer, não quis aprender. Confia no seu taco, nos seus níveis estratosféricos de popularidade.
Atropela seus articuladores, negocia tudo e qualquer coisa, não mantém relações maduras com os partidos políticos. Nem com o PT. Tem em relação ao Partido dos Trabalhadores uma atitude paternalista. São todos seus filhos.
Compromete-se, volta atrás, aceita a pressão do interlocutor mais recente.
Assim aconteceu semana passada com os projetos do marco regulatório de exploração do pré-sal. Lula cedeu à pressão dos governadores de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Depois cedeu à pressão de Franklin Martins, aliado de Renan Calheiros.
O presidente é assim.
Ao se recusar a discutir questões substantivas com o Congresso, Lula menospreza o Legislativo e transforma-o em estafeta, em mero carimbador de pratos feitos.
E o Congresso fica entregue a assuntos subalternos, como cargos, emendas, picuinhas nas comissões permanentes e nas comissões de inquérito.
Sem contar os escândalos e a vergonha protagonizados por José Sarney e seu associado Renan Calheiros.





