Nem casas populares, nem escola ou posto de saúde. Os vinte lotes que a Prefeitura de Londrina pretende receber da Loteadora Ferrari como pagamento por infraestrutura não executada no Jardim Nova Esperança, na zona sul, serão repassados para a Companhia de Habitação (Cohab) de Londrina para serem revendidos em leilão, segundo o presidente da companhia, José Roberto Hoffmann.
O projeto de lei (PL), aprovado semana passada na Câmara Municipal de Londrina (CML) em primeira discussão, levou a um embate entre a associação dos moradores e invasores de um terreno no São Fernando, também na zona sul. Enquanto estes acreditavam que os terrenos seriam utilizados para programa de moradia popular, os residentes do bairro pretendiam reverter o uso para Serviços Públicos Locais (SPL), áreas destinadas para equipamentos como escolas ou unidades de saúde.
O PL em trâmite autoriza a prefeitura a receber da loteadora 20 lotes, no valor de R$ 650 mil, mais uma complementação em dinheiro, em compensação a uma rua entregue sem asfalto e rede de esgoto. O texto ainda repassa as áreas para a Cohab a título de transferência de capital, para que sejam usados em programa de habitação municipal.
Na quinta-feira passada, tanto o presidente da associação de moradores, José Guilherme Alves, quanto invasores que pleiteavam programa de moradia nos lotes lotaram a CML para acompanhar a votação. Vereadores que defendiam a destinação para casas populares eram aplaudidos pelos presentes.
Hoffmann, entretanto, explicou ontem que a Cohab só receberá os terrenos depois de aprovada a lei e feita a transferência para a Prefeitura de Londrina, que deve, então, executar os serviços que não foram feitos.
Somente após isso os lotes serão repassados para a Cohab, divididos em tamanho menor e leiloados, com parcelas para pagamentos em até 300 meses. "Nós vamos licitar para todas as pessoas, inclusive os invasores do São Fernando, mas a Cohab não vai fazer as casas. Eles não entenderam, ou não querem entender", afirmou o presidente da companhia.
O coordenador da invasão, Marcos Luiz dos Santos, disse ontem que compreendeu a proposta da Cohab. "As pessoas vão pagar pelos lotes, não tem nada a ver com o ‘Minha Casa Minha Vida", afirmou. A informação, entretanto, pegou de surpresa quem estava na Câmara na semana passada. "Até agora, a gente não sabia disso", revelou Thaís Silva Vieira Alves, tida como a líder dos manifestantes na CML.
José Guilherme Alves não vê com bons olhos esse trâmite e recordou que os vereadores votaram o PL pensando em programa de moradia popular. "Os lotes vão acabar invadidos e a prefeitura vai dizer que não sabia."
Uma reunião estava marcada para ontem à noite, entre representantes do poder público e moradores do Nova Esperança, para debater a transformação do terreno em SPL. Hoffmann disse que a prefeitura tem planos para construir uma creche no bairro e uma unidade de saúde no bairro vizinho, mas Alves teme que a promessa não se concretize.
Enquanto isso, Marcos Luiz dos Santos questiona o posicionamento dos moradores. "Por que só agora vão atrás de creche, de posto de saúde?"

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