Lopes está livre, mas mantém silêncio
O advogado do ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes, Luís Guilherme Vieira, adiantou ontem que vai reagir à prisão de Lopes durante sessão da CPI dos Bancos na noite de anteontem, que deixou perplexa a Nação. Chico Lopes saiu do Senado preso depois de se recusar a assinar termo para falar a verdade, pagou fiança de R$ 300, deixou a sede da Polícia Federal em Brasília, por volta das 3 horas da madrugada de ontem obteve habeas-corpus e foi para um hotel.
Não pretendo polemizar com a CPI, mas a prisão de Lopes foi ilegal e isso será corrigido através de recurso jurídico que será estudado, disse ele ontem ao desembarcar com Lopes no Aeroporto do Galeão, no Rio, às 8h37. Para a defesa, o importante agora é investir numa estratégia centradamente jurídica, como a usada ontem na CPI - que, para Vieira, vai, no futuro, demonstrar sua eficácia.
Aconselhado pelo advogado, Lopes manteve-se em silêncio. Aparentando tranquilidade, percorreu o trajeto entre a sala de desembarque e o estacionamento, onde um motorista o aguardava, driblando os repórteres. Do aeroporto, Lopes dirigiu-se para casa de amigos, onde ficará hospedado. Ele vai continuar exercendo seu direito ao silêncio, afirmou o advogado. Qualquer acusado, mesmo diante de um juiz, tem o direito de permanecer calado.
Ele admitiu que, desde a semana passada, já havia ficado definido que Lopes não prestaria depoimento. Segundo um assessor de Vieira, o ex-presidente do BC foi avisado de que corria o risco de ser preso, mas, depois de três rodadas de reuniões com os advogados, concordou com a estratégia, também aceita por sua mulher, Araci Pugliese. Poucos momentos antes de ir para o Senado, ele foi novamente instruído a respeito da possibilidade de receber voz de prisão.
Entre os advogados, porém, havia a esperança de que a CPI decidisse ouvir Lopes, mesmo sem a assinatura do termo de compromisso como testemunha. Antes de expor o documento com 28 pontos entregue à comissão contendo as explicações sobre sua atitude, o economista leria um texto escrito por ele. O texto abria com a frase que Lopes chegou a balbuciar no Senado, antes de ser interrompido pelo senador Roberto Freire (PPS-PE), que afirmou que suas declarações, sem a assinatura, não teriam valor: Minha família vem honrando e tem sido honrada pelo Senado....
Na continuação, o ex-presidente do BC iria expor que se julgava avaliado pelos senadores como um réu, não como testemunha, diante das acusações vazadas pela CPI. Mais: que as informações sobre a ajuda aos bancos Marka e FonteCindam pertenciam ao Estado e não poderiam ser expostas num tribunal político. Depois da leitura dos documentos, Lopes se limitaria a responder às perguntas dos senadores citando o artigo 5º da Constituição Federal, que garante o direito ao silêncio.
A confusão instalada na CPI com a recusa de Lopes em assinar o termo impediu a execução do plano. Segundo esse assessor, apesar de a prisão ter sido esperada, ninguém imaginava que o cenário seria tão constrangedor. Mas, numa reunião de avaliação que durou ontem praticamente o dia inteiro, Vieira e seus assistentes ratificaram a tática adotada na CPI: para eles, o dano político à imagem de Lopes já foi feito e, mais adiante, poderá ser minorado, mas nunca superado.





