Iniciado com a polêmica revogação ou não de uma lei que instituiu a consulta popular sobre a venda da Sercomtel em 2001, o ano de 2006 na Câmara de Vereadores de Londrina terminou deixando uma série de desafios para essa segunda metade da 14ª Legislatura. Um deles é resgatar a independência entre os poderes, evocado nos discursos mas posto em
xeque ante a avalanche de projetos vindos da Prefeitura, aprovados a toque de caixa e, muitas vezes, na contramão de pareceres de órgãos técnicos. Nessa linha, outro desafio é justamente evitar o acúmulo de matérias a ponto de prejudicar o debate interno e com a comunidade. Entretanto, cientistas políticos consultados pela FOLHA apontam: o grande desafio dos parlamentares - e,
por que não, dos governantes de um modo geral - é justamente trazer o cidadão para dentro da discussão política. Nesse sentido, o 2006 de uma Câmara de Londrina de galerias vazias não deixa saudades.
  Apesar de marcado novamente pela aparente apatia do londrinense na Casa, o Legislativo local teve momentos que certamente entrarão para sua história. Em um deles, já nas primeiras sessões do ano, servidores da Sercomtel lotaram as duas galerias por mais de uma ocasião para protestar contra a possibilidade de anulação do plebiscito. O debate veio quando o prefeito Nedson Micheleti (PT), no mesmo mês, alegou que a consulta de 2001 o impedia de tentar a venda para reverter um déficit de R$ 4,6 milhões registrado na Celular, em 2005.
  A pressão dos funcionários da telefônica surtiu efeito, e, após várias sessões com o assunto em pauta, o Plenário arquivou um projeto de lei assinado por sete vereadores e que revogaria a lei que instituiu o plebiscito.
  Outro momento raro de galerias cheias veio já no final da greve dos servidores municipais, que durou 106 dias (agosto a dezembro). Com gritos de protesto, vaias a parlamentares da base aliada ao prefeito, maioria na Casa, e pedidos para intermediação das negociações que não aconteceram, eles se manifestaram sobretudo ante ações do Executivo respaldadas pela Câmara. A pressão chegou quase às vias de fato entre grevistas e vereadores, em novembro. Policiais tiveram de ser chamados para escoltar a saída deles. Depois da greve, galerias vazias.
  Na avaliação do cientista político Mário Sérgio Lepre, a população de um modo geral #ainda não percebeu a importância do poder que deveria exercer sobre o Legislativo municipal. ‘‘Na prática, o que se vê é que o Executivo tem muito mais poder sobre o Legislativo, o que joga por terra a independência entre os poderes. No fim, e até em âmbito nacional, o legislador acaba sendo o despachante (do executor). Não deveria ser assim’’, pondera.
  De acordo com Lepre, a desmobilização acaba fazendo com o que o cidadão ausente do debate tenha lá sua participação em assuntos que venha prejudicá-lo adiante. ‘‘Sempre foi assim: o indivíduo está preocupado com sua vidinha, e com suas necessidades mais imediatas, e não sabe que estas mudam com as ações políticas dele. Talvez a maior parte da sociedade de Londrina não saiba, por exemplo, que houve um ‘tratoraço’ nas sessões extraordinárias que impediu o debate das conseqüências de certos projetos’’, exemplificou.
  O que fazer para reverter o quadro? Realista, o cientista político acredita que o processo ‘‘é lento e demanda investimentos em Educação’’. Especialmente, acredita ele, para mudar no cidadão comum a idéia de que o que é público não lhe pertence. ‘‘A sociedade não tomou conta do quanto o Estado é pernicioso para ela, e nem que a vantagem momentânea é a desvantagem pública. Se há uma pressão constante, você pode mudar comportamentos’’, analisa.

  Mudanças - Hoje à tarde toma posse o novo presidente da Câmara, o petebista Sidney de Souza, atualmente no terceiro mandato. Ele substituirá Orlando Bonilha (PL), que sai após quatro anos no comando da Mesa.

mockup