Consternação. Talvez esta seja a palavra que expresse os sentimentos dos amigos do ex-prefeito de Londrina Wilson Moreira, que morreu ontem. São pessoas que atuaram em sua administração e que guardam histórias, ainda ricas em detalhes, de fatos que aconteceram há mais de 20 anos mas que marcaram a trajetória da cidade. Segundo eles, um homem sério, voltado ao interesse público e que não aceitava qualquer desperdício de tempo e de recursos em sua administração. Aliás, esta característica acabou lhe rendendo, entre muitos londrinenses, a fama de ''pão-duro''.
O jornalista Délio César, vice-prefeito na administração de Moreira, lembrou que ele era uma pessoa determinada para o trabalho e que se dedicou integralmente ao desafio de administrar uma cidade que lhe foi entregue endividada. ''Naquela época a dívida vencida era de um orçamento anual mais meio, mas que com a inflação do período chegou a seis orçamentos anuais. Além disso, tínhamos problemas sérios de infra-estrutura na cidade'', comentou o ex-vice-prefeito. Dificuldades que foram enfrentadas com criatividade, quando ele lançou a campanha municipal ''adote um buraco'', que levantou recursos para operações tapa-buracos.
O jornalista disse que durante a administração não se admitia desperdícios e que essa postura era transmitida a toda equipe. ''A norma era não desperdiçar, economizar e trabalhar. Tanto que entregamos a administração sem nenhuma dívida vencida'', afirma.
César assumiu a prefeitura por nove vezes e em nenhuma ocasião foi por motivo de férias do prefeito - todas as viagens foram a trabalho. Outras histórias pitorescas são lembradas por Rui Marçal, procurador jurídico da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e ex-secretário de Administração e de Serviços Públicos naquela época.
Marçal lembra da convocação feita pelo ex-prefeito do juízo arbitral (procedimento previsto no Código de Processo Civil) para decidir o aumento da tarifa de ônibus requerida pela empresa prestadora do serviço. ''Conseguimos segurar o aumento da tarifa por seis meses. A sua (Wilson Moreira) preocupação era com os serventes de pedreiro, que tinham que pagar a tarifa cheia para trabalhar'', comenta.
O procurador jurídico ainda rememorou a história dos carneiros, colocados no jardim da prefeitura para comer a grama, dispensando serviços de capina, e o aproveitamento da lã para confecção de cobertores, distribuídos à população carente. ''A sua morte é um dano irreparável. Perdemos um homem sério, honesto, responsável, timoneiro, voltado ao interesse público'', salientou Marçal.
Líder e amigo leal
O atual presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon), Junker Grassiotto, foi secretário de Obras durante a sua administração. Eles já se conheciam devido ao exercício da profissão: a engenharia. ''Ele sempre passou a imagem de uma pessoa austera, controladora mas, para mim, a imagem é contrária: de um líder, amigo leal e importante que sabia apoiar e dar liberdade para as pessoas trabalharem mas sem se ausentar das decisões importantes'', disse.
O consultor aposentado Abílio Wolff conhecia o ex-prefeito desde os seus 14 anos. Atuou em sua administração como presidente da Ametur (antiga autarquia de Esportes). ''Ele (Moreira) foi um elemento capaz, empreendedor, desenvolvimentista que conseguiu sufocar a crise com atividade e trabalho'', enfatizou. Na sua opinião, o ex-prefeito chegou à cidade com o mesmo espírito empreendedor dos pioneiros do município, que conseguiram ''fazer a cidade''.

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