Logo agora?
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sexta-feira, 28 de dezembro de 2018
Luiz Geraldo Mazza 
Logo agora?
Tudo parecia bem na transição até que alguns atos de Cida Borghetti despertaram a dúvida, e depois a ira de Ratinho Júnior, seguida da promessa de ampla auditoria sobre o fim do governo atual que o antecede. É o que dá a encenação de falsa cordialidade, misto de conivência-conveniência, como se os personagens estivessem num teatro.
Ora, esse direito de fazer auditoria é inquestionável, a qualquer tempo, embora exponha o traço de hipocrisia que, segundo La Rochefoucaud, é o elogio que o vício presta à virtude. Vamos, pois, ao conflito indispensável à apuração da verdade. Claro que antes das cenas de aproximação, na fervura do processo eleitoral, houve caneladas, ainda que ficasse claro e isso desde o início que Ratinho, que ficara o tempo todo sob Beto Richa acatando os bônus mas jamais os ônus dessa ligação, venceria o pleito disparadamente.
Parece que essa inesperada ruptura entre em conflito aberto com a avaliação da maioria dos deputados, manchete na quinta-feira (27) desta FOLHA, de que 2018 teria sido o mais tranquilo dos últimos anos de sua história nas relações de poder com Beto e Cida com matérias complexas aprovadas sem tumulto e dispensando o emprego do tratoraço.
Previdência
Em Curitiba o projeto previdenciário de Rafael Greca passou mais fácil do que o do seu colega paulistano Bruno Covas com 33 votos a favor e 17 contra o aumentar a alíquota de 11% para 14%, modelo que tende a espraiar-se pelo País acoplado, como se deu aqui, a um sistema complementar aos que ganham acima do teto de aposentadoria do INSS (R$ 5.645,80). É que em São Paulo houve conflitos entre servidores e batalhões da Guarda Municipal, com o gás pimenta operando a todo vapor. Barnabés já anunciaram greve inconformados com o corte de 3% nos salários que alegam deprimidos.
Dos entes federativos Estados e municípios estão mais voltados para atos concretos de reforma previdenciária do que a União. Na transição bolsonariana as mudanças previstas nas aposentadorias esbarram nas dificuldades que o futuro chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, encontra para dar fluidez ao processo, o que é fartamente criticado pela equipe econômica.
Dourado interditado
Está proibida por oito anos a captura, embarque, transporte, comercialização, processamento e industrialização do dourado no Paraná, ressalvada a modalidade "pesque e solte". Como a lei 19.789, de 20 de dezembro, entra em vigor 120 dias a partir da data da sua publicação, sua regulamentação fica a cargo do governo Ratinho Júnior. Iniciativa do deputado Luis Carlos Martins a matéria contou com o apoio das entidades ambientalistas e com forte repercussão nos meios cientificos. É que já existe essa consciência na prática generalizada do "pesque e solte".
Muito comum, por exemplo, entre pescadores da Grande Curitiba o hábito de devolver à água os raríssimos exemplares do lambari amarelão, que atingem 20 centímetros. Na proporcionalidade é como se fosse um dourado.
Autonomia
Uma nota do Ministério da Educação proibindo consultas informais para confecção de listas tríplices para candidatos às reitorias disparou o alarme entre docentes e estudantes de que esteja em preparo medida restritiva às eleições e consequentemente a autonomia do terceiro grau. Mobilizações estão sendo programadas. Eleição direta em escolas é parte do consenso político das últimas décadas, mas como no caso das cotas não é unanimidade.
Fala, Fabrício
Explicações do ex-assessor de Flavio Bolsonaro, Fabrício Queiroz de que é homem de negócios e faz dinheiro com venda e compra de automóveis para justificar a movimentação atípica de R$ 1,2 milhão detectada pelo Coaf não convenceram por não fundamentarem a razão de ter recebido repasses de outros funcionários. A nódoa persiste.
Ex-assessores estão em moda com o assassinato do ex-governador capixaba, Gerson Camata, por um deles com quem mantinha pendência judicial. Marcos Venício Moreira Andrade, 66, o matador, assessorou a vítima por 20 anos.
Prever para prover
Há muito o governo paranaense é leigo em planejamento: sua derradeira experiência foi na gestão de José Richa. Havia massa crítica, pessoal em atuação em todas as secretarias, gente qualificada e treinada. Desde então ocuparam-se dessa tarefa as federações, a mais empenhada delas a da Indústria, com projetos de médio e longo prazos como a questão dos transportes com estímulo a ferrovias e hidrovias e mantendo o sistema rodoviário sob pedágio e pela metade do preço atual das tarifas. O governo Ratinho Júnior, até pelo aconselhamento da Fundação Dom Cabral , retoma as artes de prever para prover.
Folclore
Curitiba teve um surto anticlerical e também o do positivismo. Certa manhã Emílio de Menezes atravessava a Praça Osório e foi confundido com uma dos seguidores de Augusto Comte da praça que o saudou
-Mestre, vais ao apostolado?
-Não. Vou pro lado oposto!


