Com seu raciocínio econômico defasado por causa do agravamento da crise financeira internacional, chega às livrarias de todo país, nos próximos dias, o livro ‘‘O Mundo em Português: Um diálogo (Ed. Paz e Terra). A obras traz, em 357 páginas, uma longa entrevista do presidente-candidato, Fernando Henrique Cardoso, ao ex-presidente de Portugal Mário Soares.
Sem imaginar que o lançamento da obra coincidiria com o ataque especulativo da semana passada contra o Brasil, que levou o governo, na última quinta-feira, a elevar os juros para quase 50% ao ano no afã de conter a fuga de divisas do país, o presidente brasileiro disse ao seu ilustre entrevistador português, na primeira semana de abril, recorrendo, inclusive, ao seu bom francês, que o Brasil passaria incólume ao largo da turbulência internacional. ‘‘Nós não estamos vivendo ‘‘à bout de souffle’ (ao ponto de perder o fôlego, numa tradução livre). Não estamos à beira do abismo: não é essa idéia que passa para o país. Pelo contrário! A idéia que passa é que vivemos uma situação de estabilidade.
O presidente-candidato afirma, na entrevista, não ter dúvida de que está lançando bases bastante fortes para o desenvolvimento econômico do país. ‘‘Não tenho dúvida quanto a isso. Mantida a inflação sob controle, não havendo uma crise externa que afete a moeda ou sei lá que agressão financeira vindo de fora, tudo irá bem porque a taxa de investimento está crescendo muito, investimento externo e interno.
O presidente-candidato poderá agora aproveitar as cerimônias oficiais de lançamento do livro para explicar por que suas previsões econômicas de abril deram errado em setembro. Com a presença de Fernando Henrique Cardoso e de Mário Soares, o livro será lançado na próxima sexta-feira na Casa de Portugal, em São Paulo, às 19h, e, no dia seguinte, no Real Gabinete de Leitura Portuguesa, no Rio, às 19h.
O livro é o resultado de várias horas de conversas gravadas entre os dois amigos no Palácio do Planalto em Brasília, em abril. Aborda vários assuntos, desde as bases do lançamento do Plano Real até os sem-terra, passando pelas heranças dos governos de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Ernesto Geisel às artes brasileiras. Inclusive, é claro, o tema reeleição. O presidente-candidato defende a reeleição, dizendo que quatro anos é pouco tempo para pôr em marcha um projeto com a envergadura do que aquele que comanda no país.
Segundo FHC, talvez se possa dizer que seria difícil encontrar, nas circunstâncias atuais, quem reúna as condições para levar adiante, com êxito, um tal projeto. ‘‘Até agora, pelo menos, não apareceu . Evidentemente convencido de que é o único nome para levar adiante tal projeto, o presidente-candidato mostra alguma dúvida, porém, quanto aos efeitos da reeleição na vida politica do país. ‘‘A dúvida que tenho é simples de expor: saber se nos sistemas locais um segundo mandato não vai proporcionar abusos e uma ainda maior oligarquização da política.
Refletindo sobre o seu provável segundo mandato, o presidente-candidato diz que o maior fator de preocupação é o emprego. ‘‘Tem a ver com o futuro dos filhos e isso pesa na classe média. Não é um problema específico brasileiro, é geral. Precisarei apresentar novos desafios ao país, novas metas. Uma candidatura que se apresenta só com a bandeira da estabilidade é, necessariamente, conservadora. Se, durante seu eventual segundo mandato, o atual presidente não tiver aprovada uma emenda constitucional para obter o direito a uma segunda reeleição, a vida política brasileira estará privada, depois de 2002, de FHC.
Pensando em viver de sua aposentadoria universitária, ‘‘o Brasil não dá
qualquer apoio material ao ex-presidente , fazendo conferências pelo mundo afora, FHC diz que gostaria de vir a ter um pequeno centro, uma fundação onde pudesse passar a limpo suas idéias e experiências. ‘‘Não acho que um ex-presidente deva regressar à vida política. Seria negativo. Sem querer fazer crítica nenhuma, porque cada um tem a sua percepção’’.

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