Livro revela as faces de Geisel, o último presidente da era Vargas
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sábado, 18 de outubro de 1997
Agência Estado Rio 
Agência Estado
(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)MemóriaGeisel, em livro: Passei uma noite de cão. Não dormi, irritadoEm janeiro de 1976, o operário Manuel Fiel Filho foi encontrado enforcado nas dependências do II Exército, atualmente Comando Militar do Sudeste, em São Paulo. Apenas três meses antes, no mesmo local, o jornalista Vladimir Herzog também havia aparecido enforcado em sua cela.
Passei uma noite de cão. Não dormi, irritado, pensando em como iria agir. Não falei com ninguém. Fiquei deitado, me virando na cama e matutando no que iria fazer. E vi que a solução era tirar o Ednardo do comando do II Exército. A declaração é do ex-presidente Ernesto Geisel, no livro Ernesto Geisel, editado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), que chegou semana passada às livrarias.
Nesse depoimento, no qual explica a decisão de exonerar o general Ednardo dÁvila Melo, um dos episódios dos últimos anos do regime militar, Geisel faz um raro desabafo e dá o tom das 33h20 de entrevistas concedidas entre julho de 1993 e maio de 1995 aos pesquisadores Maria Celina DAraújo e Celso Castro, do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da FGV.
Trata-se de uma prestação de contas, detalhada e planejada, daquele a quem os pesquisadores classificam como o último presidente da era Vargas, representante de uma desaparecida escola militar imbuída da missão de apresentar um projeto para o País. Ele tinha a visão de quem combateu o bom combate, aponta Celina. Era um homem autoritário, conservador, mas com grande capacidade de mando e com um projeto de governo organizado, baseado num Estado forte e numa democracia limitada.
Indiscrições Quem procurar no livro histórias indiscretas e comentários corrosivos não vai se decepcionar. Apesar de sua reputada discrição e sobriedade, Geisel não se furta a alfinetadas. Sobre o general Otávio Medeiros, chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) durante o governo Figueiredo, disse que era um oficial muito bom, mas depois não sei o que houve e ele deu para beber. Sobre o ex-prefeito Paulo Maluf: Não gosto do Maluf. Acho-o muito arrogante, muito ambicioso.
O depoimento foi conseguido após anos de insistência - Geisel detestava dar entrevistas e nunca havia falado tão longamente. Contando uma trajetória política que começou na Revolução de 30, quando o gaúcho de ascendência alemã virou secretário de governo da Paraíba, até o status de eminência parda adquirido desde o final de seu mandato, o livro é um mergulho indispensável para entender a história do poder militar no Brasil.
Geisel era, antes de tudo, um militar preocupado com a instituição, diz Castro. Um dos principais motivos de seu empenho pelo projeto gradual de abertura era o desgaste terrível que as Forças Armadas sofriam para manter o poder - cada processo sucessório era uma guerra entre grupos antagônicos, já que os militares nunca formaram um bloco monolítico. Geisel dá crédito ao general Golbery do Couto e Silva, seu chefe do Gabinete Civil, como principal parceiro na empreitada: Golbery queria rapidez e eu, por precaução, maior lentidão (...). As ações da oposição exacerbavam a área da linha dura (...). Minha luta se dava em duas frentes.
Geisel deixa claro sua ojeriza às eleições diretas num comentário ferino: O que deram as eleições diretas no Brasil? Collor e Itamar!. Sua idéia era a de uma democracia de eleições indiretas, sem prescindir do controle do Estado. Geisel não demonstra no livro arrependimento por ações cometidas em sua gestão - defende com unhas e dentes o acordo nuclear com a Alemanha como um ato estratégico. Mas, surpreendentemente, lamenta não ter podido anistiar o brigadeiro Sérgio Carvalho, o Sérgio Macaco, cassado por denunciar o brigadeiro João Paulo Burnier como autor de uma tentativa de uso da brigada de pára-quedistas da Aeronáutica para jogar no mar presos políticos. Seria muito bonito eu reparar a injustiça, mas iria criar um precedente e um problema sem fim, disse.


