Livro analisa jogo de interesses nos bastidores políticos
As disputas regionais, o prestígio do prefeito, as negociações por baixo dos panos entre políticos e empreiteiras para obras em municípios perdidos no interior - essa colcha de retalhos, sob a rubrica de base eleitoral, é que orienta as emendas enviadas pelos parlamentares ao Orçamento da União e define o que será feito com o dinheiro pago por cada contribuinte brasileiro. A análise está no livro Em Nome das Bases, do antropólogo Marcos Otávio Bezerra, lançado pela Editora Relume Dumará na Bienal do Livro, no Rio.
Bezerra é professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e o livro é a sua tese de doutorado pelo Museu Nacional. Ele passou três anos analisando o material levantado pela CPI do Orçamento, realizada em 1994, e entrevistando parlamentares, assessores dos gabinetes e lobistas profissionais. O resultado é um mergulho nessa categoria política convenientemente flexível chamada de base eleitoral, em nome da qual todas as atitudes dos deputados e senadores em Brasília se justificam.
É como se nós tivéssemos um sistema político montado em cima de uma concepção sobre a representação parlamentar que está muito distante da idéia de que o parlamentar deve representar os interesses da população, os ideais políticos ou produzir leis, avalia ele. É bastante difundido e reconhecido que cabe ao parlamentar atuar em favor das bases e o parlamentar defende junto ao Executivo que sua missão é essa.
Para Bezerra, há uma ponte entre o clientelismo - a relação de troca de favores entre os parlamentares federais e o eleitor ou políticos locais - e o fisiologismo, ou seja, a troca de favores entre o Poder Executivo e o Congresso. A cadeia começa no eleitor que espera do deputado de sua região que ele consiga verbas para um novo hospital, passa pelo prefeito, escritórios de lobby e empreiteiras e vai desembocar na barganha entre o parlamentar e o governo.
Se o parlamentar não consegue canalizar benefícios para as regiões, seu poder social tende a diminuir e isso é um trunfo na mão do Executivo, analisa o antropólogo. É nesse jogo que a corrupção encontra terreno fértil. As práticas denunciadas como corruptas estão coladas a procedimentos políticos considerados legítimos, aponta Bezerra, que também é autor de um livro sobre o assunto, Corrupção - Um Estudo Sobre o Poder Público e Relações Pessoais no Brasil. Foi na continuação desse trabalho que ele decidiu investigar as relações entre a apropriação indébita de recursos federais e a comissão de Orçamento do Congresso - e deparou com um mundo que gira em torno das famosas bases.





