Lina confirma encontro com Dilma e aceita acareação
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terça-feira, 18 de agosto de 2009
Gabriela Guerreiro<br>Folhapress 
Brasília - A ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira disse ontem que aceita participar de acareação com a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) no Senado para esclarecer o encontro que tiveram no ano passado - quando Dilma teria lhe pedido para agilizar as investigações sobre familiares do senador José Sarney (PMDB-AP).
Em depoimento à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Lina Vieira disse que está disposta a sentar lado a lado da ministra para apresentar sua versão dos fatos. Estou disposta a qualquer coisa que possa ajudar a esclarecer (o encontro), afirmou.
O senador Pedro Simon (PMDB-RS), que questionou a ex-secretária sobre a acareação, disse crer que a ex-secretária da Receita não inventaria um encontro com Dilma. Eu tenho o maior respeito pela senhora. Não passa pela minha cabeça que Vossa Excelência iria inventar uma coisa dessas, não ia ganhar coisa nenhuma. Mas não dá para entender porque a ministra não pode dizer.
Lina prestou depoimento por mais de três horas à CCJ e confirmou a versão revelada à Folha de S.Paulo de que Dilma lhe pediu para agilizar as investigações da Receita sobre a família Sarney. Ao encerrar o depoimento, a ex-secretária disse que fala a verdade e está disposta a provar a sua versão dos fatos - uma vez que o encontro é negado por Dilma.
Eu não mudo a verdade no grito, nem preciso de agenda para dizer a verdade. A mentira não faz parte da minha biografia, afirmou.
A ex-secretária classificou o pedido da ministra de incabí
vel. Eu só achei o pedido da ministra incabível porque a Receita trabalha com critérios. Não há necessidade de ninguém pedir nada para a Receita. A Receita é uma instituição de Estado. Não estamos ali para atender governo A, B ou C. Essa é nossa posição. É incabível porque a Receita trabalha com informações impessoais.
Lina disse que, depois que Dilma lhe pediu para agilizar as investigações sobre a família Sarney, retornou à Receita Federal para analisar o processo -mas constatou que a Receita já havia acelerado as investigações a pedido do Poder Judiciário.
Eu pedi ao meu subsecretário que me desse as informações a respeito das fiscalizações que estavam sendo tocadas pela Receita. Eu não disse a ele o assunto, eu não disse a ninguém o assunto. Depois que eu retornei, eu fui apurar. Pedi um relatório geral de fiscalizações, eu não comentei nenhum tipo de as-sunto, afirmou.
A ex-secretária disse que dois servidores da Casa Civil, um homem e uma mulher, a viram entrar no gabinete de Dilma no final do ano passado. Eu não sou fantasma, eu tomei café, me serviram café. Certamente há registros de que eu estive lá, afirmou.
Apesar de Dilma negar o encontro, Lina apresentou detalhes de sua conversa com a ministra. Cheguei no quarto andar do palácio, não tinha ninguém me recebendo. Veio a Erenice Guerra (secretária-executiva da Casa Civil), fui para sala onde estavam duas pessoas e ali fiquei aguardando. Eu não perguntei o nome dessas pessoas. Tomei uma água, um café. Não demorou muito. Dali eu saí e fui para a sala da ministra conduzida pela Erenice. Nós conversamos amenidades. Como foi muito rápido, eu não me lembro dos móveis, ela só me fez esse pedido. Foi simpática, afirmou.
Lina rebateu as insinuações sobre a insatisfação de integrantes do governo federal com a arrecadação durante sua passagem pelo comando do órgão. Ela disse aos senadores que comparar a arrecadação de 2008 com 2009 é quase patético.
Dilma
A oposição está disposta a pedir a convocação de Dilma Rousseff na CCJ para apresentar sua versão sobre o suposto encontro com Lina. Senadores da oposição afirmaram que agora Dilma precisa apresentar publicamente a sua versão dos fatos. Se a ministra rebater a versão da ex-secretária, vai ser oferecida a oportunidade dela vir aqui. Se ela não vier, vai ficar a versão da Lina para o país, disse o líder do DEM, José Agripino Maia (RN).
A oposição ainda não apresentou requerimento com o pedido de convocação de Dilma. A estratégia do DEM e do PSDB será esperar a ministra comentar publicamente o depoimento da ex-secretária antes de pedir formalmente a sua convocação. Os oposicionistas defendem acareação de Dilma com Lina, mas sabem que não têm apoio suficiente para aprová-la na CPI da Petrobras - uma vez que acareações só podem ser realizadas em Comissões Parlamentares de Inquérito.
Governistas
A base aliada do governo, por sua vez, não vê necessidade de Dilma comparecer ao Senado para explicar sua versão do encontro com Lina - que a ministra nega ter ocorrido. O senador Renato Casagrande (PSB-ES) considerou como frágil o fato de Lina Vieira não ter conseguido mostrar aos senadores o dia em que teria se encontrado com Dilma, no final de 2008. O senador Wellington Salgado (PMDB-MG) disse estar convencido, após o depoimento de Lina Vieira, que o encontro da ex-secretária com Dilma não ocorreu.
Os governistas deixaram a sessão convencidos de que Lina Vieira não apresentou provas suficientes para comprovar que se encontrou com a ministra no final do ano passado em seu gabinete na Casa Civil. A oposição, por sua vez, disse que a ex-secretária apresentou elementos suficientes para mostrar que a Dilma faltou com a verdade ao negar o encontro.
ENTENDA O CASO
1) Em entrevista à Folha em 09.ago.09, Lina disse Dilma pediu a ela, em um encontro a sós no Planalto, que o fisco agilizasse a investigação sobre um dos filhos do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP)
2) Desde 2007, Fernando Sarney é alvo da PF e da Justiça, que apuram supostos crimes de lavagem de dinheiro cometidos por empresas da família; ele já foi indiciado sob a acusação de formação de quadrilha e outros crimes
3) Segundo Lina, o pedido da ministra da Casa Civil ocorreu cerca de dois meses após a Receita ter recebido ordem judicial, em set.08, para dar celeridade aos trabalhos
4) No fim do ano, o Planalto articulava a eleição à Presidência do Senado. Em público, Sarney negava a intenção de concorrer, embora se movesse nos bastidores. Sua candidatura foi anunciada em janeiro e, apoiada por Lula, acabou vitoriosa
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