Brasília - Depois de quatro versões de proposta para salvar, principalmente, o financiamento público, os líderes do PT, do PMDB e do PC do B decidiram ontem durante reunião do conselho político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enterrar a reforma política. ''A reforma foi para o beleléu'', resumiu o líder do PT, Luiz Sergio (RJ), ao reconhecer o fracasso de todas as tentativas, por causa da falta de consenso na própria base. No encontro, os ministros Walfrido dos Mares Guia, das Relações Institucionais, e Paulo Bernardo, do Planejamento, tiveram noção das divergências entre os aliados, pois houve discussões acaloradas entre os líderes a favor e contra o financiamento misto de campanha, principal ponto da reforma.
A decisão do conselho do governo de encerrar a reforma vai no caminho contrário da declaração do presidente Lula. Em Portugal, na última quarta-feira, Lula afirmou que o País nunca esteve tão próximo de enfrentar ''dois problemas cruciais'', citando a reforma política e a reforma tributária. Segundo Lula, havia ''se não um consenso, uma maioria'' para aprovar as reformas. No entanto, o líder comparou: ''Com a reforma tributária, temos o mesmo problema da reforma política. Todo mundo quer ganhar mais um pouco e não perder em lugar nenhum''.
Embora os líderes tenham falado em retomar a discussão no segundo semestre, Luiz Sergio não acredita nessa possibilidade. Segundo o líder, a reforma ''voltará à estaca zero'' se entrar na pauta depois do recesso parlamentar. ''Pensávamos que sairíamos da reforma em uma Mercedes. Com a discussão já aceitávamos um fusquinha, mas chegamos à conclusão que se trata de uma bicicleta com pneu furado. Ou seja, vamos ficar na mesma'', comparou. O líder previu que no máximo será votada a questão da fidelidade partidária, porque ela atinge também vereadores, que pressionam para que haja uma definição sobre o tema. Os vereadores querem regras claras para saber até quando podem mudar de partido para concorrer às eleições do próximo ano.
O líder do governo na Câmara, José Múcio Monteiro (PTB-PE), também presente à reunião do conselho político, entende que é preciso promover um seminário, no próximo semestre, para buscar um consenso sobre a reforma política. ''Se não sentarmos com calma para debater, estabelecer o que temos em comum, não temos como votar. Não podemos começar pelo dissenso'', afirmou.
O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), reagiu mal à decisão da base. ''O foro é muito maior do que uma reunião de líderes e do que os partidos que compõem a base. Existem partidos que não apóiam o governo. Se prevalecer a idéia de que não tem mais nada para fazer, isso terá de ser dito no plenário'', afirmou Chinaglia, que prometeu manter a reforma na pauta do plenário. Para enterrar formalmente a reforma, os partidos terão que aprovar um requerimento retirando o projeto da pauta. Na etapa atual, em que a votação já começou, não cabe mais o adiamento, por exemplo, para o segundo semestre.

mockup