Lideranças criticam sistema político
Lideranças criticam sistema político
Insatisfação com representatividade política estão em tese de doutorado de professora da UEL
Patrícia Zanin
César Augusto/Folha de Londrina
Sem forçaProfessora Luzia Herrmann: Sentimento indica que o atual sistema não atende aos interesses da regiãoAs lideranças londrinenses estão insatisfeitas com o atual sistema político-partidário e se sentem mal representadas. Essa é uma das conclusões da pesquisa feita pela professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Luzia Helena Herrmann de Oliveira. A pesquisa e uma análise elaborada sobre seus resultados estão no livro Reformas Institucionais e Interesses Políticos (Uma Análise Regional: Londrina/PR).
O livro é resultado da tese de doutorado defendida na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, em abril de 1995. Ele foi lançado quarta-feira pela editora da UEL. A socióloga detectou a insatisfação com o sistema, uma preferência pelo voto distrital misto, o desejo pela redução no número de partidos políticos no País, a importância da fidelidade partidária e outros aspectos sobre o que denomina reforma institucional ampla dos sistemas eleitoral, partidário e de governo.
Ela ouviu 146 lideranças entre empresários, sindicalistas, administradores das principais instituições da cidade, personalidades públicas, representantes da mídia e de associações, além de políticos. A professora explica que o trabalho é inédito por destacar a opinião de parcela representativa da população, geralmente esquecida nos estudos da academia. Embora a reforma institucional esteja na pauta das discussões políticas atuais, pouco se sabe a respeito das preferências dos cidadãos, constatou.
A opinião é compartilhada pelo orientador da tese, cientista político Bolivar Lamounier. Temos no Brasil o mau hábito de supor que discussões institucionais devem ser iniciadas por políticos, jornalistas e uma parcela dos intelectuais, menosprezando avaliações muitas vezes bem lastreadas na vida prática, escreveu Lamounier, no prefácio do livro.
O trabalho da professora visa entender como as reformas se inserem em determinada região, que tem sua especificidade e interesses localizados. Ela explica ter escolhido Londrina por causa de sua posição social e econômica, que coloca o município entre as cidades politicamente mais desenvolvidas do País.
A pesquisa constatou que o sentimento regionalista indica que o atual sistema não atende aos interesses das lideranças. Prevaleceu a noção de que faltam representantes políticos para Londrina. Possivelmente, a explicação para esse fato encontra-se no mecanismo de dispersão de votos, que faz com que os votos de Londrina fiquem diluídos dentro dos partidos, não elegendo os candidatos que receberam individualmente esses votos, explica a socióloga, nas considerações finais do livro.
Como a maioria dos entrevistados (45%), ela também prefere o sistema distrital misto adotado em países da Alemanha e acredita que, se implantado no País, distorções como essas podem ser reduzidas. No atual sistema, o eleitor tem de escolher seu candidato numa lista enorme e o voto acaba indo para os mais votados. Com o voto distrital misto, a lista é fechada e o sistema combina dois objetivos: garantir a representação proporcional e aproximar os eleitores de seus representantes.
Além disso, a socióloga coloca para reflexão a fidelidade partidária. Segundo ela, mesmo em países da América Latina como Argentina, Chile, Uruguai e Venezuela, os partidos utilizam mecanismos que garantem a fidelidade dos representantes a seus partidos. No Brasil, pelo contrário, prevalece uma grande liberdade, não havendo nenhuma determinação legal que comprometa os políticos a seguirem orientações programáticas de seus partidos, escreve. Ela observa que a legislação permite autonomia ao político, fazendo com que o mandato pertença a ele e não ao partido para o qual se elegeu.
Voto útil Para a professora, a campanha pelo voto útil que começa a ganhar força nas regiões Oeste e Sudoeste do Estado é um bom sinal. A campanha pretende incentivar eleitores destas regiões a votar em candidatos destas localidades para fortalecer a representatividade e reduzir o número de pára-quedistas (de outras localidades que roubam votos de lideranças locais).
O fato de se organizar é muito bom sinal. Reclamar e reivindicar também são formas de influir, avalia. Ela entende que, embora as alterações da reforma política estejam subordinadas ao Congresso, que há décadas não faz a mudança, o fato de a população demonstrar claramente a insatisfação é um começo importante. Fundamental para este mesmo Congresso que vai votar as mudanças, afirma.





