Líder do MST critica agronegócio
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quinta-feira, 25 de novembro de 2004
Leila Suwwan<br> Folhapress 
Brasília - Num clima de vaias a Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, a Conferência Terra e Água ouviu ontem o líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stedile, defender as duras críticas ao agronegócio feitas terça-feira pelo presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Rolf Hackbart. E viu mais um representante de ministério criticar o setor exportador agrícola.
As críticas ao governo foram intensificadas no encontro, que reúne cerca de 9 mil sem-terra, pequenos agricultores e militantes sociais. A ausência de última hora de Lula foi vaiada, assim como Rodrigues, suposto representante do ''agronegócio burro''. Stedile foi o porta-voz da defesa de Hackbart, considerado um aliado contra os interesses dos ruralistas.
''O Rolf disse alguma bobagem aqui ontem? Não. Mas ele terminou de dar a palestra aqui e já correu um bando de ruralistas pressionar o governo para demitir o Rolf. O coitado só falou a verdade. Qual foi a verdade que ele disse aqui? É que o problema da reforma agrária está vinculado diretamente com a necessidade de um novo modelo agrícola e de política econômica'', discursou Stedile, estimulando a platéia e chamando os grandes fazendeiros de ''vende-pátria''.
Hackbart havia dito que, ''sob a etiqueta do agrobusiness'', fazendeiros mataram e feriram sem-terra e se organizam ''no outro lado''. O Planalto avisou os organizadores que Lula não iria comparecer ao evento no meio da tarde. Depois, o discurso sobre o ''presidente amigo'' foi preservado apenas para a imprensa. Um palestrante perguntou ao público se almoçar com o PMDB era mais importante que dialogar com as lideranças do campo. Confirmada a ausência, a vaia foi geral.
O ponto alto do dia ocorreu no discurso de Stedile, que distribuiu críticas e insultos aos grandes agricultores, ao governo e à imprensa. Depois de anunciar que o encontro irá definir em quem vão ''bater'' e quem são os ''verdadeiros inimigos'', atacou duramente a política de exportação agrícola. ''Vender matéria-prima não é orgulho, é burrice'', disse, citando nominalmente os ministros Rodrigues e Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento). Em seguida, pediu uma vaia para Rodrigues e foi atendido pelo público, que gritou por 28 segundos. Stedile chamou o agronegócio e a monocultura de exportação de ''burrice'' diversas vezes.
Amanhã os sem-terra irão marchar por uma das principais avenidas da capital até a sede do Banco Central, onde pedirão a demissão do presidente do órgão, Henrique Meirelles, e do ministro Antonio Palocci (Fazenda). Antes da manifestação, o ministro Luiz Dulci (Secretaria Geral) terá a difícil tarefa de acalmar a frustração generalizada e oferecer alguma explicação sobre a lentidão da reforma agrária.
Em três dias de conferência, os representantes governistas foram recebidos como aliados contra adversários em comum: a ala econômica do governo e o agronegócio. Depois de Hackbart, ontem foi a vez do enviado de Marina Silva (Meio Ambiente) atacar esse segmento pelo detrimento à biodiversidade com monoculturas.
''Certamente o governo tomou uma atitude de priorizar a questão da balança comercial (com exportações agrícolas), o que deixa o outro braço enfraquecido. Temos esperança que isso mude, se equilibre e não seja tão desbalanceado'', disse o diretor de Biodiversidade e de Florestas, Paulo Kogeyama. Ele falou abertamente da ''contradição muito forte entre braços do governo''. ''Já deu para ver que nesse governo não vão ocorrer as mudanças que todos esperavam'', disse.


