Foi a paixão pelo teatro que abriu as portas da política para a pedagoga Zélia Passos, de 72 anos. Ainda na adolescência, ela começou a frequentar um grupo amador em Curitiba, chamado de Associação Cultura Popular (ACP). "Nós pretendíamos montar peças de cunho político e levá-las às associações de bairro e escolas da periferia", relatou.
Mesmo ainda "verde", como diz, começou ali a tomar consciência da realidade social e a se envolver na militância. "Quando eu entrei na universidade, em 1962, já tinha essa pequena bagagem, mas era também recém-casada. No final do primeiro ano de curso, ganhei minha filha. Então minha atuação se restringia basicamente a apoiar, a me fazer presente nas manifestações estudantis", contou.
Assim como seu ex-marido, Edésio Passos, e os companheiros Luiz Manfredini e Clair da Flora Martins, por volta de 1966 se vinculou à Ação Popular. Atuou em Maringá e depois, de forma clandestina, disfarçada de operária, numa fábrica de lâmpadas da General Eletric (GE) no Rio de Janeiro.
Com a ascensão de Jaime Lerner à Prefeitura de Curitiba, em 1971, Zélia passou a atuar como diretora de educação. Na mesma época, foi aprovada em um concurso na UFPR, onde começou a lecionar. A "legalidade" não a impediu, porém, de ser presa, no final do ano. "Na manhã do dia 7 de dezembro, acordei com policiais na porta. Eles estavam com um mandado de busca e apreensão meu e do Edésio. Fiquei presa durante 60 dias, que era o período em que, pelo AI-5 (Ato Institucional número 5), os suspeitos podiam ser detidos para averiguações".
Grávida de seu segundo filho, a pedagoga não chegou a sofrer tortura física, mas foi ameaçada e submetida a longas horas de interrogatórios. "Eu não tomava sol e era a única presa política, porque os demais ou tinham sido transferidos ou tinham assinado a confissão. Juntava gente para me ver. Por outro lado, estava muito tranquila. Quando a gente está grávida, acredito que há certa plenitude da mulher. Mesmo que você esteja sofrendo, se sente poderosa, forte." (M.F.R.)

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