Rio- Recém-demitido da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o economista Carlos Lessa anunciou que escreverá um livro sobre os dois anos que passou no governo Lula. O título indica o que está por vir: Do Sonho ao Pesadelo. ''Quando me convidou para o BNDES, o presidente Lula disse: Venha dirigir o banco dos sonhos dos brasileiros'', contou durante homenagem que recebeu na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) pelo seu retorno à academia. ''Transitei do sonho ao pesadelo. Aliás, esse vai ser o nome do livro que escreverei sobre esses dois anos.'' Apesar da habitual acidez, Lessa frustrou quem esperava dele ataques diretos a Lula. O professor até elogiou o presidente, preferindo atirar contra o ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Combinando metáforas médicas e bíblicas para falar da política econômica, voltou a dizer que Lula foi ''enganado''. De acordo com Lessa, o discurso feito por Palocci para o presidente é o discurso do médico, profissão do ministro.
''O médico faz isso. Ele diz ao paciente que, para alcançar a terra prometida da saúde, é preciso atravessar o deserto, as provações terríveis do tratamento'', disse o economista. ''Mas o caminho do deserto pode levar apenas ao deserto. Foi o que aconteceu com a coitada da Argentina.'' Lessa elogiou Lula em dois momentos. Primeiro, louvou o esforço do presidente pela integração sul-americana. ''Esse mérito o Lula tem. Ele é o primeiro brasileiro a se jogar de corpo e alma na integração da América do Sul'', disse o professor, que confessou achar ''linda'' a expressão ''Estados Unidos da América do Sul''. Depois, mencionando o economista Celso Furtado, morto há uma semana, homem nascido no semi-árido nordestino como o presidente, disse que Lula ''não vai deixar o cariri''.
''Tenho certeza que o presidente vai perceber que não há chuva de maná'', disse Lessa. O maná, no caso, seriam os investimentos estrangeiros, que poderiam vir para o Brasil, por exemplo, por meio de projetos de Parceria Público-Privada (PPP), mecanismo que criticou. ''A PPP pode ser uma fantástica armadilha'', disse. ''Cuidado com a PPP. A garantia não pode ser nunca a série de futuros rendimentos. Garantia é fundamental'', afirmou o economista. ''Tem de pedir tudo do organizador da empresa. Pede a calcinha da mulher do empresário'', disparou, arrancando gargalhadas da platéia que, de pé, o ovacionara.

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