O governador Jaime Lerner (PFL) está com o seu ‘inferno astral’ antecipado em pelo menos seis meses. Os acontecimentos políticos e administrativos das últimas semanas têm tirado o sono do governador que, anteontem, fez um desabafo para uma platéia de cerca de 600 pessoas na inauguração do Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Curitiba. ‘‘Hoje (quinta-feira) foi o pior dia do meu governo. Estar aqui, para mim, é um conforto’’, disse para os convidados, sem dar detalhes do seu desânimo.
Motivos para a inquietação não faltavam. A Prefeitura de Curitiba anunciava a suspeita de 30 casos de cólera na capital, o que, se algum deles for confirmado, coloca em xeque a tese do governo de que a epidemia está restrita ao litoral. O decreto aprovado pela Assembléia, suspendendo os incentivos fiscais ao grupo português Sonae - detentor de uma rede de supermercados e da empresa de laminados Tafisa - por conta de uma briga com fornecedores também tirou o sossego de Lerner.
Mas o estompim que o levou a declarar em público que passa por um momento de turbulência, segundo o relato de fontes ligadas a Lerner, foi a ordem do ministro da Justiça, Renan Calheiros, determinando de Brasília que a Polícia Federal abra inquéritos policiais para apurar a morte de Eduardo Anghinoni, irmão de um líder sem-terra de Querência do Norte, e o sequestro e a tortura sofrida pelo coordenador do MST na região Sudoeste, Seno Staats. Lerner se sentiu traído por não ter sido consultado e divulgou ainda na mesma noite uma nota pesada contra o ministro.
A visita a Londrina ontem revelou que a crise vivida por Lerner pode vir a se acentuar. O governador foi vaiado por um grupo de professores, arrebanhados pela APP-Sindicato, na abertura da Exposição de Londrina. Lerner teve de enfrentar ainda a pressão dos ruralistas, que montaram uma comitiva na sede da Sociedade Rural do Paraná. O setor exige o cumprimento de ordens judiciais de despejo contra o MST.
Na questão fundiária, Lerner dribla a antipatia tanto de ruralistas quanto de sem-terra. Para poupá-lo de exposições diante dos ruralistas que acabaram se somando à APP, ontem, a assessoria do governador improvisou um roteiro de visita alternativo, pulando boa parte das faixas afixadas pelos manifestantes cobrando ações de governo. Hoje, o dia de Lerner promete ser mais tranquilo. Por volta do meio-dia, o governador baixa na convenção estadual do PFL, no plenário da Assembléia, em Curitiba.
Depois de uma ‘novela’ de quase duas semanas e graças à ingerência do presidente da Assembléia Legislativa, deputado Aníbal Khury, Lerner e seu grupo conseguiram afastar de vez o deputado federal Abelardo Lupion da presidência do partido, deslocando-o para a vice do ex-governador João Elísio Ferraz de Campos. A presença do governador logo mais na convenção do PFL demonstra que pelo menos em seu partido os problemas domésticos que o envolvem estão controlados. Por ora.

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