O governador Jaime Lerner (PFL) embarca hoje à noite para os Estados Unidos deixando um série de pendências administrativas para a vice-governadora Emília Belinati (PTB), que assumirá, a partir de amanhã, o governo pelos próximos seis dias. Lerner vai acompanhar a mulher, a secretária da Criança e Assuntos da Família Fani Lerner, que fará exames médicos em Nova York até o dia 19. Emília assume o governo em meio ao escândalo AMA-Comurb envolvendo o marido, o prefeito afastado de Londrina Antonio Belinati (PFL) e ainda terá o ônus de administrar as difíceis negociações com os professores da rede pública estadual – em greve há 22 dias – e os agentes penitenciários, que entram hoje no 12º dia de paralisação.
A posse da vice-governadora vai ser contestada na Justiça pelo bloco de oposição da Assembléia Legislativa. Os deputados apenas aguardam que seja formalizada a aprovação da mensagem autorizatória da viagem de Lerner (enviada ontem à Assembléia e que será votada em plenário hoje à tarde), para ajuizar no Tribunal de Justiça uma medida cautelar solicitando o impedimento e, consequentemente, o afastamento do cargo da vice-governadora. ‘‘A posse da Dona Emília vai constranger todos os paranaenses’’, atacou o líder da bancada de oposição, Irineu Colombo (PT).
O deputado informou que a medida cautelar está baseada em todos os documentos obtidos no Ministério Público e que foram analisados pelos parlamentares e pela assessoria jurídica do bloco contrário ao governo Lerner. ‘‘Temos a certeza de que a vice-governadora recebeu dinheiro público irregularmente e pode interferir na continuidade das investigações’’, justificou Colombo, referindo-se a dois depósitos em dinheiro feitos na conta de Emília, da agência Banestado, no Centro Cívico. Segundo informações obtidas nos documentos, de acordo com o líder da oposição, nos dias 20 de agosto e 16 de setembro de 1998, foram depositados, respectivamente, R$ 3,5 mil e R$ 8,2 mil.
A pressão contra a eventualidade de Emília assumir como governadora começou a se fortalencer em 15 de abril. Naquele dia o juiz Celso Saito, da 6ª Vara Cível de Londrina, determinou o afastamento de Belinati da prefeitura, a indisponibilidade e a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico dele, da mulher, do filho – o deputado estadual Antônio Carlos Belinati (PSB) – e de outras duas filhas do casal. ‘‘A oposição tem todo o direito de ir à Justiça, mas não vejo fundamento na proposta deles’’, criticou o líder do goveno na Assembléia, Valdir Rossoni (PTB).
O presidente da Assembléia, Nelson Justus (PTB), voltou a afirmar que ‘‘até agora’’ não viu ‘‘nada que comprometesse’’ a vice-governadora com o escândalo AMA-Comurb. Justus também disse que nas mais de 30 vezes que Emília assumiu a interinidade ‘‘nunca criou qualquer embaraço’’ na administração pública. Caso o TJ aprove o pedido do bloco de oposição, será Justus quem vai assumir, pela primeira vez, o cargo de governador.
Ontem à tarde a assessoria de Emília informou que ela estava ‘‘tranquila’’ para assumir como governadora, mas ‘‘preocupada’’ com a manifestação que os professores da rede estadual vão fazer em frente ao Palácio Iguaçu (leia mais no caderno Cidades) a partir do meio-dia de hoje. A assessoria também comunicou que não está prevista nenhuma entrevista coletiva da vice-governadora. Desde que estourou o escândalo AMA-Comurb, Emília se manifestou uma vez numa nota oficial e outra através de um artigo publicado na Folha. O governador Jaime Lerner deixa Curitiba no meio da tarde. À noite, embarca de São Paulo para os Estados Unidos.

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