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Londrina

Política

m de leitura Atualizado em 28/05/2021, 08:19

Lerner deixa como marcas o urbanismo e herança controversa do pedágio

PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de maio de 2021

Lucas Catanho/Especial para a FOLHA
AUTOR autor do artigo

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A morte do ex-governador Jaime Lerner nessa quinta-feira (27) teve repercussão imediata não apenas no meio político paranaense como também entre entidades de classe ligadas à arquitetura, por conta de seu legado como urbanista.  

Lerner, que governou o Estado de 1995 a 2002, depois de ter sido prefeito de Curitiba por três mandatos, ficará marcado justamente por biografias distintas como gestor estadual e municipal. À frente da prefeitura da capital, ele promoveu “revoluções urbanísticas” e soluções de mobilidade que lhe deram projeção política e reconhecimento nacional.  

Imagem ilustrativa da imagem Lerner deixa como marcas o urbanismo e herança controversa do pedágio Imagem ilustrativa da imagem Lerner deixa como marcas o urbanismo e herança controversa do pedágio
|  Foto: Théo Marques/11-10-2013
 

Já como governador, ficará marcado como o responsável pela concessão das principais rodovias federais do estado à iniciativa privada, no final dos anos 90, em contratos firmados com a iniciativa privada considerados lesivos por especialistas por conta de altas tarifas de pedágio e baixa contrapartida em obras de duplicação. 

Jaime Lerner faleceu no Hospital Evangélico Mackenzie, na capital, aos 83 anos. Segundo nota oficial do hospital, ele morreu em decorrência de complicações de doença renal crônica. Em março deste ano, o ex-governador teve Covid-19, mas na ocasião apresentou sintomas leves da doença. Lerner deixou a política ao fim de seu segundo mandato como governador e passou a se dedicar exclusivamente à arquitetura. 

O sepultamento ocorreu na tarde dessa quinta-feira no Cemitério Israelita Santa Cândida, em Curitiba, após cortejo em um caminhão do Corpo de Bombeiros pelas ruas da capital com a presença de amigos, familiares e políticos, entre eles, o governador Ratinho Junior (PSD) e o vice-prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel (PSD).  

Ratinho Jr. decretou luto oficial de três dias no Estado. “O Paraná perde um grande cidadão, que dedicou uma vida inteira ao Estado, com realizações que transformaram Curitiba e servem até hoje de inspiração mundo afora. Um exemplo que ficará marcado eternamente pelas centenas de obras espalhadas pelo nosso Estado”, disse o governador. 

 REPERCUSSÃO 

Um de seus principais adversários políticos, o ex-governador e ex-senador Roberto Requião (MDB) também se manifestou. “O Jaime tinha uma visão mais liberal do que a minha. Mas eu não tenho dúvida de que, apesar da minha crítica ao seu liberalismo, com muita tranquilidade eu posso elogiar o seu talento, a sua capacidade na administração de cidades, de mobiliário urbano. A história irá considerar esse período em que o Jaime fez política no Paraná e na minha cidade, Curitiba, de uma forma muito clara.” 

O senador e ex-governador Alvaro Dias (Podemos), outro contemporâneo de Lerner na trajetória política, foi mais sucinto e usou as redes sociais para expressar sua solidariedade a familiares e admiradores de Lerner.  

O presidente da Assembleia Legislativa, deputado Ademar Traiano (PSDB), disse considerar o urbanista e político uma das mais talentosas e criativas personalidades que o Estado já produziu, destacando que as gestões de Lerner à frente da Prefeitura de Curitiba transformaram a capital em uma referência “planetária” de cidade inovadora. “Entre muitas intervenções, ele transformou a principal avenida da cidade, a XV de Novembro, em um Calçadão, implementou o BRT [Transporte Rápido por Ônibus], o Expresso, o sistema de ônibus por canaletas, introduziu o Ligeirinho. Criou a Ópera de Arame e o Jardim Botânico. Uma série de mudanças importantes que fizeram uma verdadeira revolução urbana, tornando a capital do Paraná um exemplo para o país e lhe deram fama mundial.”  

O senador Oriovisto Guimarães (Podemos) destacou que Lerner tinha a capacidade de inspirar. “Jaime Lerner foi mais que um arquiteto e urbanista. Foi mais que um grande prefeito e governador. Ele tinha a capacidade de nos inspirar. Ele pegava um pedaço de papel, um lápis e expunha uma grande ideia. Ele contaminava a todos com sua criatividade.” 

RELAÇÃO FORTE E CONTURBADA COM LONDRINA

Em seus oito anos de mandato como governador do Estado (1995 a 2002), Jaime Lerner viveu uma relação conturbada com a segunda maior cidade paranaense. Apesar de ter tido como vice Emília Belinati, então esposa do ex-prefeito Antonio Belinati, a quem apoiou na eleição municipal de 1996, Lerner era visto por parte da população e setores da sociedade civil londrinenses como o “governador de Curitiba”.  

A queixa maior era de que teria havido poucos investimentos no município em detrimento a ações desenvolvidas na capital e região metropolitana. Ficou marcado, especialmente no segundo mandato, o fato de o governador ter vindo pouquíssimas vezes à cidade.  

O apoio de Lerner a Belinati em 1996 foi considerado decisivo para a eleição do ex-prefeito na disputa acirrada contra o ex-deputado federal Luiz Carlos Hauly (PSDB) no segundo turno. Dois anos depois, em 1998, quando Lerner disputou a reeleição ao governo, a aliança com Belinati também foi determinante para que a negociação envolvendo a compra de 45% das ações da Sercomtel pela Copel prosperasse.  

Como arquiteto e urbanista, Lerner colaborou muito com a cidade ao participar da elaboração do primeiro Plano Diretor de Londrina, na gestão do ex-prefeito Hosken de Novaes (1963-1968), segundo relata o biógrafo de Novaes, jornalista José Antônio Pedriali, e projetar o Calçadão, em 1977, inspirado na Rua das Flores de Curitiba, também projetada por ele. "A gente fica muito triste e se solidariza com a família do ex-governador, que deixou uma história bonita no Estado. Deixou um nome nacional como um dos maiores arquitetos do País", destacou o prefeito Marcelo Belinati (PP). (Diego Prazeres/Editor de Política, com colaboração de Pedro Marconi)

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Arquiteto, ganhou projeção como prefeito de Curitiba

Arquiteto e urbanista formado pela UFPR (Universidade Federal do Paraná), Jaime Lerner ficou afastado da política nos últimos anos. Ele foi prefeito de Curitiba por três vezes entre as décadas de 1970 e 1990, por Arena, PDS e PDT. Depois, foi governador do Paraná por dois mandatos consecutivos, de 1995 a 2002 - elegeu-se primeiro pelo PDT e, em seguida, pelo então PFL (atual DEM). 

Como prefeito de Curitiba, ele ganhou projeção nacional e internacional pelos projetos arquitetônicos e urbanísticos que desenvolveu para a capital, como os feitos em calçadões, parques e no sistema de transporte da capital paranaense.  

Após deixar a prefeitura, Lerner indicou como sucessor, na época, Rafael Greca, que comandou a cidade entre 1993 e 1996. Em 1997, já no seu penúltimo ano do primeiro mandato como governador, Lerner deixou o PDT após divergências com o principal líder do partido na época, Leonel Brizola. Em seguida, filiou-se ao então PFL. 

PEDÁGIOS 

Como governador, Jaime Lerner deixou como principal marca a concessão das rodovias federais que cortam o Estado para a iniciativa privada. Na ocasião, opositores ao governo consideraram os contratos com as concessionárias lesivos ao Estado, já que os projetos de duplicação previstos demorariam a ser realizados e a um custo muito alto nas tarifas de pedágio para os usuários das rodovias. E foi o que se viu na prática. 

 Em 1998, quando disputava a reeleição ao governo, Lerner determinou a redução da tarifa dos pedágios em 50%, em medida contestada judicialmente pelas concessionárias, que alegaram violação nos contratos firmados um ano antes. Lerner venceu a eleição em primeiro turno e os valores nas praças de pedágio voltaram aos patamares anteriores.   

Firmados em 1997, com duração de 25 anos, os contratos de concessão das rodovias do chamado Anel de Integração terminam neste ano deixando como legados grandes trechos duplicados, especialmente na Rodovia do Café, que liga Apucarana a Curitiba, mas também suspeitas de corrupção em aditivos firmados sucessivamente, a ponto de virarem alvo de investigação da Operação Lava Jato, com acordo de leniência elaborado por algumas das concessionárias que admitiram as ilicitudes.  O ex-governador chegou a depor na CPI instalada pela Assembleia Legislativa, em 2013, para apurar denúncias de irregularidades nos contratos. (Folhapress e Reportagem Local)

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