Curitiba - Primeiro governador do Paraná a ficar no poder durante oito anos ininterruptamente, Jaime Lerner (PFL) pretende se dedicar à arquitetura a partir de 1º de janeiro de 2003. O sonho de ser presidente da República, alimentado durante anos principalmente pelas pessoas que o servem, teve de ser substituído por outro mais modesto, mas que lhe garantirá sobrevida e visibilidade nos próximos três anos. Desgastado pelos altos e baixos vividos ao longo de seus dois mandatos como governador, Lerner se dedicará ao que melhor sabe fazer na presidência da União Internacional dos Arquitetos, com sede em Paris, na França.
  De 70% de aprovação, no início de seu primeiro mandato, a popularidade do governo Lerner caiu para 26% em dezembro do ano passado, segundo pesquisa do Instituto Datafolha. Há cerca de 15 dias, o Ibope confirmou o declínio. Trinta e nove porcento dos entrevistados consideraram o governo Lerner regular, 32% ruim e péssimo, 27% ótimo e bom e 3% não souberam responder. Lerner, que não é candidato a nada nestas eleições, prepara-se para deixar o governo do Estado. O desvio do caminho político imaginado por ele pode ser interpretado como um retorno ao seu caminho original, de arquiteto e urbanista reconhecido internacionalmente.
  A queda de popularidade começou em 1997, coincidência ou não, depois da desfiliação do governador do PDT de Leonel Brizola e entrada no PFL de Antonio Carlos Magalhães, em setembro daquele ano.
Lerner ainda teve bastante fôlego para se reeleger no primeiro turno, em 1998, mas os índices de aceitação descambaram mesmo no segundo mandato, que começou em janeiro de 1999. Na campanha para a reeleição de Cassio Taniguchi (PFL), seu fiel aliado, à Prefeitura de Curitiba, em 2000, o governador participou apenas no primeiro turno, sendo deixado de lado no segundo turno, sob pena de colocar em risco a vitória de seu candidato.
  Um dos fatores que contribuíram para a queda na popularidade, mais que a condução de seu governo, pode ter sido o desgaste natural comum a todos os políticos que cumprem dois mandatos no País, como o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Turbulências vividas durante o seu governo também foram fundamentais para a mudança de relação com a opinião pública.
Na reeleição de Cassio, por exemplo, Lerner amargava o desgaste do processo de privatização da Copel, que depois acabou não se concretizando. Antes disso, o conflito entre policiais militares e trabalhadores rurais sem terra na Rodovia BR-277, em maio de 2000, onde foi morto o trabalhador rural Antonio Tavares Pereira, 30 anos, pai de cinco filhos, já havia tido repercussão internacional.
  Também contribuíram para o desgaste o pedágio, a privatização do Banestado, a CPI do Narcotráfico que derrubou a cúpula da Polícia Civil e depois o secretário de Segurança Pública, Cândido Martins de Oliveira. O preço da impopularidade ainda é caro. Assim como foi em 2000, o governador corre o risco de não aparecer no horário eleitoral gratuito de Beto Richa, o candidato do PSDB e de Lerner à sucessão estadual.
Nem o rompimento com Rafael Greca (PFL), que quis viabilizar-se como candidato próprio do PFL ao governo do Estado, foi suficiente para dissipar dúvidas da campanha de Beto. O último Ibope, mostrando o tamanho do estrago, fez o comando refletir sobre a presença do governador no horário eleitoral.

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