Problemas com telefones, irregularidades em desapropriações de áreas ambientais, exageros nos preços dos pedágios e o aumento da criminalidade deixaram de ser caso de polícia para virar caso de política. O Legislativo paulista vive uma febre de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) embalada pela euforia com as comissões no Senado (do Judiciário e dos Bancos) e a bem-sucedida apuração da CPI dos Fiscais, na Câmara Municipal. Desde 15 de março, início do mandato, dez CPIs foram propostas. Só uma, a da Telefônica, foi aprovada em plenário.
‘‘A onda de CPIs tem relação com o atual estágio de cobranças que a sociedade está fazendo, hoje no limite’’, atesta o presidente da Associação Brasileira dos Consultores Políticos (Abcop), o cientista político Gaudêncio Torquato. ‘‘As insatisfações sociais estão desaguando no Legislativo’’. Por isso, estariam surgindo pedidos de CPIs como nunca, também no Rio e em Minas. Dos nove pedidos na fila de votação, nem todos serão aprovados ou votados, como foi feito com a CPI da Telefônica. O regulamento da Casa determina que haja, no máximo, cinco comissões de inquérito funcionando ao mesmo tempo.
Genérica demais Nessa fila, há pedidos curiosos, como os das CPIs dos Pedágios e das Enchentes, e outros que repetem preocupações de mandatos anteriores, como o aumento da violência no Estado. Boa parte dos pedidos é genérica demais, como duas solicitações feitas para apurar problemas nos serviços da Eletropaulo (uma para a Região Metropolitana, outra para o resto do Estado) e a proposta de investigação de irregularidades no transporte de passageiros.
O deputado Carlos Braga (PPB) pediu a abertura de comissão para apurar a má qualidade do transporte na Ferrovia Novoeste. O possível aumento nos pedágios preocupa o deputado Geraldo Vinholi (PDT). A investigação dos responsáveis pelos transtornos das enchentes de verão é solicitação do deputado Edson Aparecido (PSDB). Os pedidos das CPIs da Eletropaulo são de Marquinho Tortorello (PPS) e Nabi Abi Chedid (PSD).
O mais recente pedido de CPI foi do deputado Faria Júnior (PMDB), na semana passada, para investigação do aumento da criminalidade. Um dos primeiros, de março, é o de Campos Machado (PTB), para apuração dos serviços da Telefônica.
Grandes palcos ‘‘Há riscos no processo de CPIs’’, alerta o presidente da Abcop. Interesses eleitoreiros podem prevalecer sobre os objetivos oficiais de apurar, corrigir e apontar soluções. Deputados de primeiro mandato, por exemplo, podem tentar uma publicidade que levariam anos para obter. ‘‘CPIs são grandes palcos’’, alerta Gaudêncio Torquato.
O PT, que em geral mantém-se à frente nas investigações, não apresentou solicitações de CPI. ‘‘Mas isso não quer dizer que o partido deixará de participar ativamente das investigações’’, avisa o vice-líder da bancada, Jilmar Tatto. Na legislatura anterior, 25 pedidos de CPIs foram apresentados pelos deputados, mas só seis saíram do papel.

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