Legislativo precisa de fiscalização, transparência e menos autonomia
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de maio de 2010
Andréa Bertoldi<br>Equipe da Folha 
Curitiba Nos últimos meses, os paranaenses têm sido assolados por diversas e graves denúncias de irregularidades envolvendo integrantes da Assembleia Legislativa do Estado e também da Câmara de Vereadores de Londrina. Membros das duas Casas Legislativas foram alvos de ações e investigações instauradas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). As denúncias apuradas vão de improbidade administrativa e peculato à formação de quadrilha, as quais, invariavelmente, acabam lesando aos cofres públicos.
Segundo cientistas políticos consultados pela FOLHA, a raiz da questão pode estar no excesso de autonomia concedida a deputados e vereadores e na falta de fiscalização e controle, sem a presença de um item fundamental: a transparência.
Muitas vezes, os parlamentares defendem os próprios interesses daquilo que fiscalizam, segundo o cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ricardo Costa de Oliveira. Na Assembleia Legislativa a gente vê um bloco unido. Quando caiu o Bibinho (Abib Miguel, ex-diretor geral) não teve um comentário, destacou.
Para ele, o aumento das irregularidades decorre das eleições cada vez mais caras. Com isso, os parlamentares precisam de mais dinheiro para o período eleitoral. Aumentam a remuneração, as verbas indenizatórias e o número de assessores, o que é realizado, geralmente, no final do mandato para que possam se beneficiar.
Há hoje uma casta de políticos profissionais. Quando um político morre ou está idoso, algum filho ou neto se candidata e consegue se eleger com base no sobrenome de peso de seu ascedente.
A cientista política Luciana Veiga lembra que as funções do deputado são legislar, fiscalizar o Executivo e levar benefícios para os seus redutos. No entanto, o eleitorado valoriza, na maior parte das vezes, apenas este último papel e o deputado acaba se envolvendo mais com esta parte. Para Luciana, uma forma de conter o volume de irregularidades é incentivar a formalização das denúncias - estas devidamente apuradas.
Se passar um pente fino em cada Câmara Municipal vem problemas, disse Oliveira. A mesma opinião é compartilhada pelo cientista político Mário Sérgio Lepre. Se você vasculhar, teria problemas nos Legislativos do Brasil inteiro, em todas as assembleias legislativas, disse.
Lepre destacou que a legislação é basicamente federal e o Legislativo federal tem uma supremacia sobre o estadual. Com isso, o deputado estadual se transforma em despachante de interesses para as suas bases. Segundo ele, hoje a política é fisiológica, ou seja, movida por um jogo de interesses e não dentro do seu papel verdadeiro. Monta-se um mandato de serviços e uma estrutura de apadrinhamento, destacou.
Os especialistas defendem que as maneiras de enfrentar estes problemas de irregularidades nos legislativos seriam fazer a reforma política, rever os financiamentos públicos de campanha, diminuir os gastos do poder legislativo drasticamente e primar pela transparência. O legislativo é para fazer leis e política e não enriquecer. No entanto, há cada vez mais assessores e verba para gabinete, disse Oliveira.
Luciana defende que a imprensa e o Ministério Público tem que fiscalizar para que seja punido quem tiver problemas. Para Lepre, o voto é o primeiro ponto para tentar mudar o cenário. Ele destaca que a sociedade organizada, que inclui a OAB e as ONGs, precisam exigir mudanças, transparência e prestação de contas. O especialista ainda defende a profissionalização dos cargos das Assembleias Legislativas e das Câmaras Municipais, inclusive com a realização de concurso público. Tem que enxugar a estrutura e tornar profissional. Tem muita gente vivendo de uma estrutura podre. A corrupção gera desmandos e ineficiência, disse.


