Lavagem de dinheiro sustenta crime
Arquivo FolhaFORTUNADe cada três dólares que circulam no mundo, um pertence ao crime organizado, incluindo o tráfico de drogasA Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico sabe que só vai atingir seu objetivo quando chegar a fonte que alimenta o crime organizado: a lavagem de dinheiro. Mas esta é uma operação complexa e delicada. ‘‘A lavagem de dinheiro não pode ser feita sem o comprometimento do sistema bancário’’, garante o delegado federal Paulo Lacerda, um dos maiores especialistas do assunto na área policial, responsável pelo desmanche da rede de Paulo César Farias.
De cada três dólares que cir5culam no mundo, um pertence ao narcotráfico e ao crime organizado. É um volume muito grande de dinheiro e o sistema financeiro não pode e não quer ficar longe dele. Para os bancos, não existe dinheiro sujo. ‘‘Todos sabem que os bancos operam com caixa 2. Muitas vezes, o esquema é montado pela própria direção do banco. Em outros casos, é realizado pelos gerentes das agências’’, afirma Lacerda. De acordo com ele, a dificuldade de rastrear estas operações ficou clara no episódio da quebra do Banco Nacional. ‘‘Descobriu-se que durante dez anos eles mantiveram mais de mil contas funcionando no esquema de caixa 2 e movimentando milhões por dia’’, lembra. Esta imersão do ilegal no legal se transformou em uma das marcas mais preocupantes do sistema financeiro no Ocidente.
‘‘É por este caminho, pela entrada do dinheiro sujo no sistema legal, que todas as instituições se comprometem’’, diz o procurador da República Antônio Celso Três, de Cascavel, responsável pelo desmanche da gigantesca rede de lavagem de dinheiro através das contas CC5 em Foz do Iguaçu. ‘‘A lavagem de dinheiro não é possível sem a conivência do próprio Banco Central. O sistema é organizado e se move com velocidade diante de qualquer denúncia. Mas é no sistema financeiro que teremos que encontrar o coração do crime organizado no País’’, afirma Três.
Os Estados Unidos, o primeiro país do mundo a considerar a lavagem de dinheiro um crime, começou agora a rever a legislação que adotou há treze anos. No início deste ano, num esforço concentrado que reuniu juristas e economistas, o Congresso provou que o sistema de controle é falho. Com ajuda dos banqueiros, milionários escondem fortunas no banco sem violar a lei.
O Departamento do Tesouro norte-americano obriga as instituições bancárias a enviarem relatórios completos sobre atividades financeiras suspeitas. Os funcionários dos bancos são treinados para detectar este tipo de situação. Mas, segundo o relatório do Senado, estes mesmos funcionários recebem instruções para abrir o maior número de contas privadas, que são altamente rentáveis para os bancos. Os Estados Unidos reconhecem hoje que são os maiores depositários de ‘‘dinheiro sujo do mundo’’.

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