Curitiba - Quando a Operação Lava Jato foi deflagrada no dia 17 de março deste ano, ninguém imaginava a proporção que as investigações tomariam e nem a dimensão do megaesquema de lavagem de dinheiro de cerca de R$ 10 bilhões e desvio de recursos públicos denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF). Com diversos personagens, a apuração do maior escândalo já registrado no País completou nove meses com 16 ações penais já propostas na Justiça Federal do Paraná, além de quatro desmembramentos, que abrangem o total de 87 réus.
Esse número deve aumentar ao final do recesso do Judiciário que vai até o próximo dia 7 de janeiro, pois os procuradores do MPF estudam apresentar novas denúncias contra outras empreiteiras, pelo menos mais um diretor da Petrobras e outros operadores citados nas investigações. Até o momento onze pessoas já foram condenadas pelo juiz federal Sérgio Moro; e um processo está em suspensão condicional, ou seja, o réu Carlos Alexandre de Souza Rocha fica obrigado a cumprir determinadas obrigações por um período de dois anos. Caso todos os requisitos forem cumpridos a ação penal será arquivada.
A Lava Jato já teve sete fases, sendo que a última apurou a participação maciça do "cartel" de empreiteiras. O MPF afirma que o esquema de cartel em obras da Petrobras existe há pelo menos 15 anos. "Muito embora não seja possível dimensionar o valor total do dano, pode-se afirmar que o esquema criminoso atuava há pelo menos 15 anos na Petrobras", escreveram os procuradores na petição em que pedem autorização para a deflagração da sétima fase da Lava Jato.
O que iniciou como uma apuração local de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, agora investiga as maiores empreiteiras do País, com contratos que chegam a R$ 59 bilhões com a Petrobras, suspeitas de pagar propinas a agentes públicos para fechar contratos com a estatal petrolífera. Inicialmente, havia quatro núcleos de investigação, cada um controlado por um doleiro (Alberto Youssef, Nelma Kodama, Raul Henrique Srour e Carlos Habib Chater), de acordo com o MPF.
A apuração, então, foi dividida em quatro inquéritos, cada um com um doleiro e seus subordinados. Nelma Kodama era especialista em enviar remessas de dinheiro para o exterior; já Raul Henrique Srour fornecia dólar para outros doleiros através de distribuição de títulos pela sua casa de câmbio. Alberto Youssef é apontado como líder do esquema e recebia valores por meio de suas empresas de fachada; já Carlos Habib Chater usava a movimentação financeira do Posto da Torre (DF) para fornecer moeda aos demais doleiros.
O esquema consistia na lavagem de dinheiro no mercado clandestino de câmbio com origem do tráfico de drogas, corrupção, sonegação fiscal e desvio de verbas públicas. Os desvios eram praticados por empresas controladas pelos doleiros, algumas em nome de laranjas. Aos poucos, os tentáculos do megaesquema foram sendo descobertos pela PF e MPF e atingiram uma grande proporção até chegar a políticos e empreiteiros.
O protagonismo do londrinense Alberto Youssef dentro da operação fica claro, pois ele é citado como réu em dez processos na 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba, além de já ter sido absolvido na ação penal que tratava sobre lavagem de dinheiro proveniente do tráfico internacional de drogas. Em seguida, aparecem Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobras; e Waldomiro de Oliveira, proprietário formal da MO Consultoria e "laranja" do doleiro, que são réus em seis ações penais.

PEÇAS-CHAVES

Costa e Youssef, inclusive, são peças-chaves dentro da investigação porque fecharam acordo de delação premiada em troca de uma redução de pena. Em seus depoimentos, os dois detalharam como funcionava todo o esquema e citaram diversos nomes, entre eles muitos políticos e grandes empresários. Os dois foram inicialmente denunciados por fazerem parte de um esquema de desvio de recursos das obras da Refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco.
A partir do aprofundamento das investigações referentes aos desvios de contratos fechados com a Petrobras foi possível observar qual era o papel de cada integrante do esquema e a divisão das propinas, incluindo o pagamento a políticos de pelo menos três partidos: PT, PMDB e PP. Somente o ex-diretor da Petrobras teria mencionado 28 políticos em sua colaboração, entre senadores, ex-governadores, parlamentares e ex-ministros.
Entre os nomes mencionados por Costa estariam o deputado paranaense Nelson Meurer (PP) e a senadora Gleisi Hoffmann (PT); além dos ex-presidentes da Câmara, Henrique Alves (PMDB), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB); e ex-ministros como Antônio Palocci (PT); Mário Negromonte (PP) e Edison Lobão (PMDB).
A expectativa agora é aguardar a abertura de inquérito por meio da Procuradoria Geral da República (PGR) contra os políticos citados nas delações premiadas. A tendência é que isso ocorra no mês de fevereiro. Até lá, os processos referentes aos operadores, diretores da Petrobras e grandes executivos seguem tramitando na Justiça Federal do Paraná, mesmo com os advogados dos executivos impetrando recursos nos tribunais superiores.

mockup