Curitiba - O ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef confirmaram durante seus depoimentos, na última quarta-feira, na Justiça Federal do Paraná, a existência de um "cartel" formado por grandes empreiteiras responsáveis pela maioria das obras da Petrobras e que garantiam o repasse de 3% sobre os contratos fechados com a estatal petrolífera para pagamentos de propina a políticos do PT, PP e PMDB. "As empresas se reuniam e decidiam quem iria vencer determinada licitação para realizar não somente obras da Petrobras, mas outros projetos do País todo. Nunca participei destas reuniões, mas sabíamos disso quando era feita a licitação. Essa cartelização resulta num preço delta excedente. Na área de petróleo e gás, essas empresas normalmente colocavam de 10% a 20% a mais no valor da obra, entre custos indiretos e o lucro delas", disse Costa em seu interrogatório.
Segundo ele, os pagamentos de propina eram efetuados diretamente por representantes das empresas para os operadores do esquema (Youssef, por exemplo). "Não passava nada pela Petrobras. Os diretores/presidentes das empresas tinham conhecimento desses pagamentos. Faziam parte do cartel a OAS, Camargo Corrêa, Odebrecht, Iesa, Mendes Junior, Queiroz Galvão, Toyo Setal, Galvão Engenharia, UTC Constran, Engevix, Andrade Gutierrez, e outras", afirmou o ex-diretor da estatal.
Conforme o depoente, as empresas que faziam parte do cartel não tinham interesses somente dentro da Petrobras, mas em projetos desenvolvidos por outros órgãos do governo federal, como ministérios e secretarias comandados por políticos da base aliada. "Se as construtoras deixassem de contribuir com os 3% para determinado partido, isso iria refletir em outras obras a nível de governo e os políticos das pastas não iriam olhar com bons olhos. Então era um interesse mútuo, porque as empresas não visavam somente a Petrobras, mas também obras de hidrovias, ferrovias, rodovias, hidrelétricas, etc", contou Costa.
Segundo ele, ocorreram alguns atrasos, mas nenhuma das empresas do cartel deixou de pagar os cerca de 3% de propina. Costa afirma que a cartelização funcionava em outras obras da Petrobras e até obras de fora da estatal. Ocorreu também na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba, "como deve ter ocorrido" na construção da usina nuclear de Angra 3, no Rio de Janeiro, em rodovias e nas construções de hidrelétricas da região Norte do País, completou ele.
O doleiro Alberto Youssef exemplificou de que forma o esquema funcionava com o caso da Camargo Corrêa na obra da refinaria Abreu e Lima. "A Camargo usou a Sanko Sider como fornecedora de tubulação e fez o repasse através da emissão de notas de serviço. A Sanko realmente prestou o serviço à Camargo, mas o valor pago foi acrescido do valor para que o repasse aos agentes políticos pudesse ser feito", disse ele durante seu depoimento.
Youssef disse que em todas as obras da Camargo Corrêa e do Consórcio Camargo Corrêa (CNCC) houve o pagamento de propina. Somente na obra da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, conforme o doleiro, a Camargo Corrêa teria fechado um contrato de R$ 3 bilhões. O doleiro Youssef também confirmou que listas apreendidas em seu computador pela Polícia Federal são a contabilidade das propinas pagas pela construtora Camargo Corrêa, via fornecedora de tubos Sanko Sider e pelas firmas de fachada abertas por ele (MO Consultoria e GDF). Nelas há os valores movimentados, e "as comissões" e os "repasses" pagos no esquema.
"As empresas tinham muito claro que só conseguiam o contrato se pagassem o pedágio. Caso contrário, havia pressão política e interferência do Paulo Roberto para que elas perdessem o contrato. As empreiteiras, inclusive, loteavam previamente entre si qual pegaria qual obra", disse o doleiro, confirmando um cartel entre as empreiteiras. Youssef deu nome de todos os diretores de empreiteiras com que tratou, geralmente presidentes, vice-presidentes ou diretores de óleo e gás.
De acordo com Paulo Roberto, o esquema que funcionava na diretoria de Abastecimento, onde ele ocupava o cargo de diretor, foi iniciado a princípio pelo deputado federal paranaense e líder do PP José Janene, morto em 2010.
Posteriormente, o papel de Janene foi assumido por Youssef. "Por exemplo, primeiro fechava-se um contrato com uma das empresas do cartel. Depois o Youssef ia até esta empresa para conversar com determinada pessoa e fazia a operacionalização para repassar para os agentes políticos e para mim, que era diretor. As empresas do cartel sabiam que iriam financiar políticos e campanhas políticas. Em 2010 elas financiaram várias campanhas", afirmou.

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