O novo laudo sobre as mortes de Paulo César Farias e sua namorada, Suzana Marcolino, apresentado ontem pela manhã por quatro peritos em Medicina Legal e Criminalística, nomeados pelo juiz da 8ª Vara Criminal de Maceió, Alberto Jorge de Barros Lima, coloca em dúvida a versão de crime passional defendida pela polícia alagoana e pela equipe do legista Badan Palhares. A conclusão do novo laudo deixa claro que ‘‘não há elementos técnicos nos autos capazes de assegurar que Suzana Marcolino tenha praticado suicídio.’’
O juiz responsável pelo caso, Alberto Jorge Correia de Lima, comentou os resultados do laudo. Segundo ele, a nova perícia muda o rumo das investigações sobre o caso PC. ‘‘Há um forte indicativo de que houve um duplo homicídio. Isso vai provocar a coleta de novos depoimentos dos envolvidos.’’
A nova perícia foi divulgada ontem em Maceió pelos legistas Genival Veloso de França (Universidade Federal da Paraíba) e Daniel Romero Munhoz (Universidade Estadual de São Paulo), e pelo criminalista Domingo Tochetto (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), todos nomeados pela Justiça alagoana. O laudo diz que ‘‘foram constatados indícios que falam contra o suicídio, e que permitem levantar a hipótese de que a causa jurídica da morte de Suzana possa ter sido homicídio’’.
Os peritos trabalharam durante nove dias, analisando os 10 volumes do inquérito policial com 1,8 mil páginas, mais de 200 fotografias e cerca de 50 depoimentos. Além disso, eles estiveram várias vezes no local do crime, exumaram os restos mortais de Suzana, realizaram teste de balística na arma e chegaram a usar um porco para simular a morte de PC.
As radiografias do pescoço de Suzana Marcolino serviram para provar a existência de fratura no osso estióide direito, o que pode ser um sinal de esganadura. ‘‘Nós não encontramos, na parte óssea dos restos mortais de Suzana, outra fratura senão essa no pescoço, que será objeto de um exame complementar que realizaremos em São Paulo para dizer se a lesão aconteceu antes ou depois da morte’’, explicou Munhoz, que é presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Legal. Os legistas querem identificar há quando tempo o osso estióide estava quebrado para dizer se Suzana foi ou não estrangulada.
Segundo Munhoz, não há dúvida que PC foi assassinado, mas não há nada que prove que o tiro que o matou tenha sido disparado por Suzana. ‘‘O estudo residográfico das mãos de Suzana não apresentam nenhum elemento químico que prove que a arma foi disparada por ela’’, assegurou.
Quanto à possibilidade de ter havido um duplo homicídio, como defendeu parecer do médico legista George Sanguinetti, os peritos disseram que não cabe a eles discutir a forma jurídica do crime, mas fica evidente que há uma discordância quanto à tese de homicídio seguido de suicídio. ‘‘Tecnicamente, pela experiência que tenho de mais de 25 anos de balística, eu não afirmaria que Suzana matou PC e depois se suicidou’’, destacou Tochetto.
Em sua análise, Tochetto chegou à conclusão que Suzana pode ter manipulado a arma do crime, porque foram encontrados resíduos de pólvora nas mãos dela, mas nada comprova que ela tenha feito algum disparo. ‘‘Tecnicamente ela não atirou’’, afirmou o perito, levando em consideração a ausência de elementos químicos (chumbo, bário e antimônio), contidos na espoleta de cartuchos similares, nas mãos de Suzana. Além disso, ‘‘a ausência de manchas de sangue na arma, a inclinação atípica na arma e a trajetória do projétil são evidências que descartam a possibilidade de suicídio’’.
‘‘Confrontando a estatura de Suzana com a trajetória do projétil pela perícia anterior, é inviável que ela estivesse sentada na posição referida, quando foi atingida pelo projétil’’, afirmam os peritos, na conclusão do laudo entregue ao juiz da 8ª Vara Criminal de Maceió. Para eles, PC morreu no local, no quarto da casa de praia de Guaxuma, onde seu corpo foi encontrado ao lado de Suzana, na manhã de 23 de junho de 1996. Os legistas disseram que não há elementos para precisar a cronologia da morte de ambos.
Quanto à presença de uma terceira pessoa no quarto, os peritos disseram que o único elemento que poderia comprovar essa hipótese é a fita com a gravação da mensagem de Suzana para o dentista paulista Fernando Colleone, mas a fita não foi analisada. ‘‘A própria equipe da Unicamp, que investigou a fita, não deu um parecer conclusivo sobre a existência ou não de uma terceira voz’’, informou Tochetto. Sobre a janela do quarto, onde os corpos foram encontrados, ele disse que foram constatadas evidências de arrombamento.
Na opinião de Sanguinetti, esse novo laudo comprova sua tese de duplo homicídio, ‘‘embora não seja tão incisivo’’.
A promotora Failde Mendonça participou da apresentação do novo laudo e disse que deverá solicitar à polícia judiciária novas diligências para esclarecer se houve duplo homicídio. O juiz Alberto Jorge de Barros Lima disse que dentro de quatro dias entrega o novo laudo à promotora.

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