O lavrador José Aparecido dos Santos, 29 anos, identificado nesta semana pela Polícia Federal como ‘‘laranja’’ do escândalo AMA-Comurb, disse ontem à Folha que tem novas revelações que incriminam uma pessoa influente de Londrina. ‘‘Tenho mais coisa para contar. Não contei antes porque quero falar primeiro com o promotor’’, afirmou.
A PF chegou a José dos Santos por causa de um inquérito conduzido pelo delegado João Luiz do Prado que apura emissão de cheques sem fundos. Uma foto do lavrador foi utilizada para confecção de documentos que teriam sido usados para abrir contas bancárias e pelo menos uma empresa fantasma, a Freitas & Dutra. Esta empresa, que tinha conta na agência central do Banestado, foi usada para a lavagem do dinheiro desviado em licitações fraudulentas da Companhia Municipal de Urbanização (Comurb).
Ontem a Folha foi até à casa de Santos, em Florestópolis, cerca de 60 km distante de Londrina. É uma casa simples, onde ele mora com a mulher, duas filhas e dois irmãos mais velhos. Um deles, que se identificou apenas como ‘‘Mancha’’, atendeu a reportagem. ‘‘Meu irmão é um coitado, pai de família, tem uma vida sofrida. Ele nunca roubou, nunca matou, sempre obedeceu o conselho de minha mãe. Agora uma foto vai sujar a minha família? Por que?’’, questionou.
Antes de conceder entrevista – sem foto – José dos Santos reclamou que vem sofrendo ameaças e que está passando dificuldades financeiras. Ele chegou a pedir que a Folha pagasse pelas informações. ‘‘Eu tô com a vida enrolada, sem trabalho, minha família está passando dificuldades’’, reclamou.
Santos negou que tenha participação em qualquer esquema envolvendo empresas fantasmas. Ele contou que há cerca de dois anos trabalhava numa oficina mecânica em Londrina e tinha contato quase diário com um cliente chamado ‘‘Lorival’’. ‘‘O Lorival dizia que trabalhava numa secretaria da Prefeitura de Londrina e era muito amigo de um político’’, afirmou.
O lavrador disse que na época pegou carona com o cliente para comprar marmitas e, quando desceu do carro, esqueceu a carteira no console. Depois percebeu que uma foto 3/4, que ele guardava na carteira, tinha sumido. Santos alega que na época percebeu que a foto desapareceu mas não deu importância.
Cerca de um mês atrás, no entanto, assistindo TV, viu sua foto numa reportagem que falava sobre uma empresa fantasma. ‘‘Fiquei pensando e cheguei a conclusão de que foi ele (Lorival)’’, comentou. O lavrador disse que foi atrás do ex-cliente para pedir explicações. ‘‘Ele riu na minha cara e confirmou. Mas disse que não dava nada, que eu não tinha assinado nada. Disse também que não tinha sido só uma empresa, mas várias empresas’’, disse.
Santos acrescentou que Lorival sugeriu que ele não comentasse o caso com ninguém. ‘‘Eu falei que, se viessem me procurar, ia dizer que era ele. Aí o Lorival disse que era a minha cara que estava lá, não a dele. Foi quando procurei um advogado’’, revelou.
Ainda segundo Santos, o advogado consultado disse que o caso deveria virar inquérito e que, cedo ou tarde, a Polícia Federal iria procurá-lo. ‘‘Aí voltei a falar com o Lorival e ele disse que não tinha problema, que ele me arrumava advogado’’, acrecentou. Pouco depois, o ex-cliente teria oferecido duas passagens de avião para São Paulo para que ele sumisse da região. Dizia também que um ‘‘tubarão’’, amigo de Lorival, poderia resolver a situação assim que voltasse de uma viagem. Santos não quis revelar o nome da pessoa, mas disse que é conhecida e influente em Londrina.
Orientado por um novo advogado, Santos disse que resolveu procurar o Ministério Público. ‘‘Eu ia lá mas a PF já estava atrás de mim’’, afirmou. O lavrador disse também que, de 15 dias para cá, tem recebido ameaças em telefonenas dados a um orelhão próximo da casa dele. Por isso, tem evitado ficar em casa. ‘‘Não sei quem liga. Eles falam apenas para ficar de boca fechada e eu tenho medo de represália’’, afirmou.
Ainda segundo ele, assim que for ouvido novamente na Polícia Federal irá revelar o nome do ‘‘tubarão’’. ‘‘Não falei da outra vez porque esqueci.’’ O advogado de Santos, Vilson Galvão, disse ontem que vai aguardar a conclusão das investigações da Polícia Federal para saber quais as consequências que ele pode ter. ‘‘Depois vamos tentar uma ação indenizatória, por danos morais, contra quem for necessário. Como o banco, por exemplo, que abriu a conta’’, afirmou.

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