Lançamento de livro sobre Bolsonaro é barrado em universidade no Norte Pioneiro


Luis Fernando Wiltemburg - Grupo Folha
Luis Fernando Wiltemburg - Grupo Folha

A proibição do lançamento do livro “A Eleição de um Meme”, do professor de Filosofia Paulo Sérgio Guerreiro, no campus da Uenp (Universidade Estadual do Norte do Paraná) em Bandeirantes, levantou debates sobre possível censura. Enquanto a portaria que impediu o evento, previsto para a última terça-feira (26), baseou-se em norma que impossibilita comércios dentro da instituição, tanto o autor quanto representantes dos alunos e dos professores veem na atitude uma proibição de discutir questões envolvendo o atual cenário político brasileiro. 


Capa do livro "A Eleição de um Meme"
Capa do livro "A Eleição de um Meme" | Divulgação/Facebook
 


O lançamento do livro era uma das atividades previstas no projeto “A Universidade e a Educação Política em tempos de escola sem partido”, desenvolvido no colegiado de Agronomia. O livro do professor de Filosofia, formado pela própria Uenp, é um ensaio em que ele analisa a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) do ponto de vista das estratégias utilizadas na campanha. “Não é uma dissertação ou tese acadêmica, mas um ensaio que envolve o conteúdo das minhas pesquisas, já que trabalho com filosofia política. O livro analisa o processo eleitoral e a grande tese é que os conteúdos de internet, denominados memes, foram determinantes para a eleição e acabamos elegendo alguém que é um meme”, defende. 




A portaria, assinada pelo diretor do campus, Ederson Marcos Sgarbi, justifica que o livro já está à venda pela internet e que não poderia haver transações comerciais em um evento ligado à Uenp. A medida se respalda no argumento de que "inexiste [inexistia] a informação se o aludido lançamento possui conotação comercial”, o que desrespeitaria, em tese, ato executivo da instituição lançado em 2014. 


Segundo Guerreiro, a proposta do lançamento era fazer uma discussão sobre o conteúdo do livro, mas, diante da portaria, a abordagem da palestra foi modificada para não haver a suspensão. “Eu sequer citei o título e, quando ia citá-lo, eu trocava o nome por ‘o livro’. Os participantes ficaram sem entender naquele momento, mas devem ter compreendido depois, devido à repercussão”, avalia. 


Para o autor, a atitude da direção do campus pode ser encarada como "censura" porque proibiu a discussão de um assunto pertinente à época. “Livros fazem parte das pesquisas acadêmicas", argumenta Guerreiro, que já havia feito o lançamento na Semana de Filosofia, promovida no campus de Jacarezinho da mesma Uenp. 


O presidente do DCE (Diretório Central Estudantil), Tiago Damaceno, também vê censura, uma vez que o autor acabou barrado de discutir o conteúdo da obra. “O que aconteceu foi a proibição de um debate sobre o cenário político atual. O Paulo Sérgio [Guerreiro] sabe que não poderia vender dentro da universidade e nem o faria, mas ele acabou impedido de debater o conteúdo”, avalia. O DCE emitiu nota de apoio ao professor de Filosofia. 


O Sindiprol/Aduel (sindicato que representa os professores da Uenp) também se manifestou nesta quinta-feira (28). No texto “Censura e autocensura afrontam autonomia universitária e liberdade de cátedra na Uenp”, a entidade cita não apenas o caso de terça-feira, mas também a suspensão da Jura (Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária). “Em abril deste ano, membros da comunidade acadêmica, ecoando reclamações das forças mais reacionárias do município de Bandeirantes, atuaram para inviabilizar a Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária (Jura), um tradicional evento que, em 2019, foi realizado em mais de 60 universidades do país”, diz o texto. 


INTERPRETAÇÃO INADEQUADA DA PORTARIA, DIZ REITORA


A reitora da Uenp, Fátima Padoan, afirma que, mesmo com a proibição, a palestra prevista para o evento ocorreu e que houve uma interpretação inadequada da portaria que proíbe o comércio dentro da universidade. Fátima diz que a instituição vai elaborar instrução normativa que deixe mais claro o objetivo da regulamentação, diferenciando lançamentos de obras de eventos meramente comerciais. "Entendo que faltou, por parte da reitoria, este esclarecimento."


Para a reitora, a regulamentação que proíbe vendas dentro da universidade foi utilizada por segmentos contrários ao conteúdo do livro na tentativa de suspender o evento. "Ao buscarmos informações, o diretor do campus disse que o objetivo do ofício não foi censurar, mas a reitoria vê com preocupação o ocorrido e quer desenvolver, a partir deste fato, ações para que não ocorram novamente."




Fátima ainda ressalta que lançamentos de obras são corriqueiros em instituições de ensino e sustentou a importância dos livros num ambiente regido pela pluralidade de ideias e produção de conhecimento. "O pesquisador tem de encontrar na Uenp a sua casa para as práticas acadêmicas", defende a reitora.

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