Brasília - Numa entrevista tensa, o novo coordenador da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência, Marco Aurélio Garcia, reconheceu ontem que integrantes da campanha montaram um dossiê contra políticos do PSDB. Garcia ressaltou, no entanto, que ''são fatos que correm marginalmente à coordenação da campanha''.
''Nós repudiamos essa operação que algumas pessoas tentaram levar adiante. O PT não fez nenhuma iniciativa, mas hoje é de caráter público que pessoas estão envolvidas nessa operação. O PT não paga por dossiê, não atua nessa direção. As pessoas que fizeram isso foi à revelia do partido e trouxeram prejuízos extraordinários do ponto de vista político'', disse. Mais tarde, Marco Aurélio considerou o dossiê uma ''anomalia''.
Garcia disse que as denúncias sobre o ''dossiê tucano'' não irão afetar o quadro eleitoral. A campanha ainda aposta na vitória do presidente Lula no primeiro turno. ''(As denúncias) não colam nele (presidente Lula) nem no PT. Não terá impacto na eleição. Todas as medições nos indicam que o eleitor brasileiro é maduro e repudia esse episódio como nós repudiamos'', disse. Segundo ele, a campanha vai se concentrar nas regiões Sul e Centro-Sul. A campanha será encerrada com um grande comício em São Bernardo, no ABC paulista.
Em vários momentos da entrevista, Garcia se irritou com perguntas sobre o ''dossiê tucano'', principalmente sobre de onde veio o dinheiro para a compra do material. A PF encontrou com um petista que trabalhava no comitê nacional da campanha de Lula R$ 1,7 milhão. Garcia disse que cabe à PF investigar.
Garcia isentou o presidente nacional do PT, deputado Ricardo Berzoini (PT-SP), de qualquer participação no episódio. ''O Berzoini saiu porque seria muito difícil compatibilizar a coordenação da campanha com os acontecimentos dos últimos dias. Isso não implica em qualquer suspicácia com relação a Berzoini. Ele continua na presidência do PT e tem não só o meu apreço coletivo, como pessoal e isso se refletirá no dia primeiro de outubro quando vou votar nele para deputado federal'', disse.
Garcia acusou ontem o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Marco Aurélio Mello, de ter sido tendencioso ao declarar que o ''caso dossiê'' é mais grave do que o escândalo Watergate, que derrubou o presidente dos Estados Unidos Richard Nixon. ''Acho que é uma opinião em tom muito impressionista. O mínimo que diria é que ela é exagerada, para não dizer que ela pode ter conotação partidária'', disse Garcia.
O comentário do ministro Marco Aurélio foi feito em entrevista ao ''Jornal do Brasil'', publicada ontem. Ao ser questionado se o dossiê encomendado por petistas para tentar desmoralizar os tucanos José Serra e Geraldo Alckmin se assemelhava ao watergate, o ministro respondeu: ''Não, não vejo. É algo muito pior, não há comparação. Aquela escuta foi realmente muito terrível, mas agora o que temos aqui é uma somatório de desvios de poder''.

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