Kandir defende trégua para disputa política
A morte prematura do líder do governo na Câmara, Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA), surpreendeu os políticos que estiveram no Congresso ontem para lhe dar um último adeus, apenas dois dias depois da morte do ministro das Comunicações, Sérgio Motta. Com discrição, eles comentavam não apenas a perda pessoal, mas principalmente o prejuízo político provocado pela ausência do deputado baiano. Para esses parlamentares, a morte de Luís Eduardo compromete a relação do governo federal com o Legislativo, fragiliza os projetos políticos do PFL - que pretendia fazê-lo sucessor de Fernando Henrique em 2002 - e altera o cenário da sucessão ao governo do Estado da Bahia.
O deputado e ex-ministro do Planejamento Antonio Kandir (PSDB-foto) e aliados do governo defenderam ontem uma trégua na disputa política para que o presidente Fernando Henrique Cardoso possa dar prosseguimento ao projeto. É o momento de dar espaço para o presidente se organizar, advertiu Kandir. Não é hora de se fazer nenhum tipo de reivindicação.
Segundo ele, a substituição dos dois principais auxiliares do presidente, Motta e Luís Eduardo, deve ocorrer sem atropelo, sem pressionar o presidente. No curto prazo, é inevitável que o presidente acabe recentralizando o processo político, previu. Os líderes terão de compreender o momento difícil pelo qual passa o País e redobrar os esforços para superá-lo, completou.
O pré-candidato a governador de Goiás, ex-ministro da Justiça e senador Íris Rezende, reconheceu que só com muita cautela e perseverança os governistas conseguirão evitar a transformação da perda dos dois principais articuladores políticos num prejuízo insanável. Cada líder terá de se esforçar em dobro para que a Nação não seja penalizada, ponderou.
Para o ex-ministro da Indústria, Comércio e Turismo Francisco Dornelles a realidade é cruel para o País. Desde a morte de Tancredo Neves, não vejo tanta repercussão como esses últimos acontecimentos, comparou. Luís Eduardo Magalhães era o primeiro-ministro do governo, afirmou. Atuava nas principais decisões políticas e executivas do governo. Dornelles lembrou que o deputado vivia o Congresso 24 horas e tinha na cabeça a posição de cada um dos parlamentares.
É consenso entre políticos das mais variadas frentes que os reflexos da morte inesperada levarão algum tempo para serem contornados. É uma perda incalculável, disse o senador pefelista Guilherme Palmeira (PI). Não sabemos o que isso vai provocar na política brasileira; com certeza, muda a sucessão na Bahia, haverá impacto importante no projeto de reeleição do presidente FHC e nos objetivos políticos do PFL, concluiu. É uma perda muito grande; o PFL perde muito, mas o Brasil perde mais, resumiu o deputado José Jorge (PFL-PE).
Perplexidade também tomou conta dos parlamentares da oposição. Até onde era possível, nós tínhamos uma boa relação, afirmou o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP). Ele era um político convicto de suas posições, era conservador e jogava duro conosco da oposição, mas era absolutamente fiel aos acordos que selava, acrescentou. Estou chocada; embora estivéssemos em frentes diferentes, ele nunca discriminou os partidos de oposição; sempre soube conversar, comentou a deputada Jandira Feghali (PC do B-RJ).
Fiquei muito abalado; o Luís Eduardo construiu um canal de comunicação seguro e confiável com os partidos de esquerda, reagiu o líder do PSB na Câmara, deputado Alexandre Cardoso (RJ). Era o principal elo de comunicação com o governo e sua grande virtude era a credibilidade; nunca deixou de cumprir um acordo e isso é raro na política brasileira, concluiu.





