O empresário Hissan Hussein Dehaini, acusado pelas CPIs nacional e estadual do Narcotráfico de ser um dos principais chefes do tráfico de drogas no Sul do País, foi libertado ontem, por ordem judicial, depois de permanecer 104 dias preso na Prisão Provisória do Ahú, em Curitiba. Agora, o processo contra o empresário, por formação de quadrilha, prossegue com o réu em liberdade.
O juiz Osvaldo Benjamim de Moura e Costa, da 4ª Vara Criminal de Curitiba, acatou pedido dos três advogados de Dehaini, que alegaram que o prazo para a conclusão do processo contra o empresário preso expirou. Segundo o advogado José Lagana, esse prazo seria de 76 dias. ‘‘Ele não pode ser punido por fatos aos quais não deu origem’’, justificou Lagana, em entrevista à Folha.
Dehaini, de 43 anos, mora em Araucária (Região Metropolitana de Curitiba), onde possuiu um grande patrimônio, como helicópteros e aviões. Durante a passagem da CPI nacional do Narcotráfico pelo Paraná, em março, e na CPI da Assembléia Legislativa paranaense, ele foi acusado por traficantes, principalmente José Maria Menezes Montalvão.
Montalvão sustenta que Dehaini seria o responsável pelo esquema internacional de tráfico chamado de ‘‘Conexão Libanesa’’. Vinda da Colômbia e da Bolívia, a cocaína desembarcaria em pistas clandestinas no Paraná e em Mato Grosso do Sul e seria exportada para Espanha e Líbano (país de origem de parentes do empresário) pelo Porto de Paranaguá.
Dehaini foi preso em 11 de outubro do ano passado, durante sessão da CPI estadual, a pedido dos deputados e após depoimento de Montalvão. Em março, ele permanecera preso durante 60 dias na Delegacia da Polícia Federal em Curitiba, a pedido da CPI nacional do Narcotráfico.
A estratégia da defesa do empresário é desqualificar o acusador. ‘‘Quem formula a acusação é excluído do Exército, foragido da Justiça de Corumbá (MS) e comprovadamente um débil mental’’, afirmou Lagana. ‘‘Tudo o que ele fala é por sugestões que lhe passam’’, completou o advogado sem, no entanto, nomear quem estaria fazendo essas ‘‘sugestões’’. Montalvão é ex-sargento do Exército.
Lagana disse que cabe ao Estado provar que seu cliente é culpado. ‘‘Ele é um empresário de sucesso, cujo patrimônio foi construído pelo trabalho. Imputam-lhe a condição de financista do narcotráfico, mas já quebraram seus sigilos fiscal, bancário e telefônico e não conseguiram provar nenhuma ligação dele com o narcotráfico.’’
Ao deixar a prisão, às 18h35, Dehaini fez poucos comentários. Mais uma vez ele se declarou inocente. Disse apenas que estava ‘‘bastante feliz’’ com a libertação, que acredita que a ‘‘Justiça será feita’’. Afirmou que vai comparecer a todas as audiências a que for convocado pela Justiça durante a tramitação do processo. ‘‘Nunca fugi de nada. Depus duas vezes na CPI.’’ Aguardavam o empresário na saída do Ahú sua mulher, Rosi, a irmã, Ohaila, além de outros parentes. O empresário saiu dirigindo um de seus carros, um Audi A3 prata.
Informados pela Folha da libertação de Dehaini, os deputados Algaci Túlio (PTB), presidente da CPI estadual do Narcotráfico, e Ricardo Chab (PTB), relator, não quiseram comentar a decisão judicial. Afirmaram que só vão se pronunciar após tomar conhecimento oficial da libertação do acusado.
Durante a CPI, os deputados chegaram a apontar supostas ligações criminosas entre Dehaini e o ex-secretário de Fazenda de Maringá, Luis Antônio Paolicchi, preso sob acusação de desviar dinheiro da prefeitura. Dehaini sustenta que apenas vendeu um helicóptero a Paolicchi.
Agora, há apenas um suposto mandante do crime organizado preso: o empresário Joarez da Costa França, o ‘‘Caboclinho’’, acusado de liderar o desmanche de carros roubados na Região Metropolitana de Curitiba. (Colaborou Ellen Taborda)

mockup