Juruna foi o primeiro indígena-deputado
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sábado, 12 de agosto de 2000
Edinelson Alves De Brasília Especial para a Folha 
Mário Juruna, 57 anos, foi o único indígena brasileiro a exercer mandato de deputado federal. Com 31.904 votos, foi eleito em 1982 pelo PDT do Rio de Janeiro com o apoio do ex-governador Leonel Brizola e do antropólogo Darci Ribeiro. Mas hoje o líder xavante enfrenta uma situação dramática em decorrência de problemas de saúde.
Ele conta que esteve à beira da morte por duas vezes e enfrentou longos períodos de internamento no Hospital Sarah Kubitscheck. Tudo isso resultado de agravamento de uma pancreatite, seguido de pneumonia, problemas cardíacos e ainda o desgaste dos ossos da perna. Morando no Guará, cidade satélite de Brasília, há quase dois anos Juruna está preso a uma cadeira de rodas. Para qualquer deslocamento preciso de favores de vizinhos ou mesmo de desconhecidos. É uma situação que me incomoda e me deixa bastante triste, reclama.
Juruna tornou-se uma figura pública em todo Brasil a partir de 1974. Foi quando começou a denunciar o extermínio dos índios. Desconfiado das promessas dos políticos, ele adotou um gravador como marca registrada para provar que a palavra do homem branco não era cumprida. Fiquei mais conhecido naquele período do que o dólar americano, recorda.
Sem nenhum jeito para negociações, o líder guerreiro entrou no cenário político trombando com Funai, fazendeiros, invasores e até com o presidente da República, na época, o todo poderoso general Emílio Garrastazu Médici. A tática do governo era desqualificá-lo perante a comunidade indígena na tentativa de esvaziar suas denúncias. Quando os militares tentaram impedi-lo de viajar a Holanda para participar do Tribunal Bertrand Russel sobre Direito dos Índios das Américas, em 1980, ele não só desobedeceu a ordem como saiu de Roterdã como presidente daquele fórum.
O líder xavante disse que deixou sua tribo depois de entender que as coisas só se resolviam em Brasília. Não adiantava eu ficar reclamando das coisas lá na minha aldeia. Era preciso chegar à sede do poder para dizer algumas verdades às autoridades que não conheciam e nem se importavam com a realidade dos índios. A invasão das reservas, extermínio dos povos, nada disso incomodava a Funai, os deputados ou mesmo o presidente. Saí candidato a deputado federal para que o índio pudesse ter voz no Congresso e um legítimo representante em Brasília, recorda.
Ele cumpriu seu mandato de 83 a 87. Na Câmara, presidiu a Comissão do Índio e foi membro da Comissão da Agricultura. Questionado sobre o que conseguiu realizar como deputado, dispara: Absolutamente nada. E justifica: O Congresso não é a Casa do Povo como eu pensava. Só chega a deputado ou senador quem é rico, fazendeiro, empresário ou gente ligada aos grandes grupos que têm intesses econômicos. Eu era apenas um índio lutando contra tudo e contra todos os interesses. Ninguém se importava com a causa do índio. Só ouvimos discursos, promessas e enrolações que nunca chegaram nas aldeias, critica.
Entre os políticos, Juruna poupa alguns poucos como Brizola, Darci Ribeiro e outros integrantes do PDT. Brizola é um político sério, nacionalista, que tem sensibilidade social e que ama esse País, elogia.
Sobre um paralelo entre o governo militar e o civil em relação à causa indígena, o líder xavante responde: Infelizmente, o governo militar foi melhor. Apesar das ameaças, da pressão dos militares e até da Polícia Federal que era usada contra nós, os militares tinham mais palavra. Quando faziam um acordo, geralmente cumpriam. O governo civil só faz promessas e usa a questão indígena para fazer política. Veja o que esse governo fez durante a comemoração dos 500 anos. Foi um ato vergonhoso que representou o verdadeiro desrespeito que essas autoridades têm pelos índios, critica.


