Brasília - Responsável pela decisão que suspendeu, de forma provisória, a posse do ex-presidente Lula como ministro da Casa Civil, o juiz da 4ª vara federal Itagiba Catta Preta Neto, 55 anos, diz ter perdido a conta de quantos protestos já esteve em Brasília desde o último ano. "Se não em todos, os que eu não fui foi por algum impedimento que não lembro. Devo ter ido em alguma manifestação a favor do PT também, mas não sei se quando o PT era governo", afirma ele, que mantinha fotos no Facebook de sua participação nas manifestações pró-impeachment até a manhã de ontem - após a decisão que anulou a posse de Lula, a página pessoal do juiz, que continha mensagens "Fora, Dilma" foi excluída.

A iniciativa, afirma, foi tomada pelo filho, de 19 anos, após outras pessoas da família ficarem incomodadas com a divulgação das imagens. Ele nega que o tenha orientado a esconder as postagens. "Estive nos protestos e compartilho da indignação das pessoas que estiveram naqueles protestos. Não tenho nada a esconder", diz ele, que aparece em uma das fotos com o adesivo de campanha do Aécio Neves (PSDB) na camisa.

"Votei nele nas últimas eleições", relata o juiz, que afirma já ter votado também em Marina, Dilma e Lula em outras ocasiões, e tem dois filhos filiados ao PSDB. "Não tenho ligação com o partido nem pretendo ter."
Questionado se sua postura favorável aos protestos pró-impeachment não poderia impedi-lo de julgar a nomeação de Lula, o magistrado diz não ver problemas em ter analisado o processo. "Meu posicionamento cidadão não me impede de julgar com total imparcialidade o que acontece", afirma ele, que recebeu a imprensa em seu gabinete horas depois de participar de outro protesto - desta vez, com cerca de 30 juízes federais, em apoio ao juiz Sérgio Moro, que conduz a operação Lava Jato.

'BOLA DA VEZ'
"Pensei: é comigo. Sou a bola da vez", disse o juiz, ao ver a ação que pedia a suspensão da nomeação de Lula para a Casa Civil. A análise ocorreu um dia após a Polícia Federal retirar o sigilo de interceptações telefônicas do ex-presidente, que tomou posse pouco tempo antes de ter o cargo suspenso pelo juiz. "Dizer que não em influenciou seria uma tolice. Mas o que me levou a decidir é o que está demonstrado na petição inicial do processo." Segundo ele, a gravação que mais o incomodou foram as referências ao STF (Supremo Tribunal Federal) e à ministra Rosa Weber. "Fiquei tão estarrecido, preocupado e indignado como qualquer outra pessoa", disse. "Primeiro por ser uma conversa da presidente com um ex-presidente. Segundo que as palavras que Lula usa são não convencionais para um ex-presidente da República", relata.

'MORALIDADE'
Segundo o juiz, a decisão ocorreu por questões de "moralidade pública" e pelo risco de uma possível interferência de Lula na análise dos casos Operação Lava Jato. Ele cita o fato de que, ao assumir o cargo, o ex-presidente passa a ter foro privilegiado, o que deslocaria as análises sobre o caso da primeira instância, em Curitiba, para o STF. "Isso já é evidência da tentativa de haver uma intromissão do Poder Executivo no Poder Judiciário", afirma ele.

Apesar da avaliação desfavorável ao atual governo, o juiz evita se posicionar sobre a possibilidade de impeachment. "Se o Congresso achar que houver ofensa aos dispositivos legais, sou a favor do impeachment. Se não, sou contra."

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