Patrícia Zanin
De Londrina
Cristiane dos Santos, de 16 anos, Fabiana Américo Ferreira, de 18 anos, e Marlene de Jesus Maciel, de 17, têm em comum, além de serem adolescentes e morarem no Lar Anália Franco, em Londrina, a vontade de viver em um País melhor. Apesar do desânimo das jovens com a política – apenas duas têm título de eleitor e pouquíssima disposição de votar – as três e uma amiga delas, Mayara Daiane de Barros, de 14 anos, encararam o desafio e descreveram o país de seus sonhos: com uma classe política mais preocupada com a questão social, com a educação, com a saúde, com o emprego, com a ética, com o lazer e com a arte.
Elas são apenas quatro dos 2,5 mil adolescentes de vários Estados que participaram da elaboração da ‘‘Carta do Adolescente’’ (ler ao lado), apresentada na semana passada, como resultado do projeto ‘‘O País que Queremos’’. O projeto, desenvolvido a partir da constatação do desinteresse do jovem pela política, pretende estimular a reflexão sobre como mudar esta realidade. A iniciativa é do Unicef, da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), das fundações Athos Bulcão e Odebrecht, do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária e da TV Cultura de São Paulo/Fundação Padre Anchieta.
Cristiane, Fabiana, Marlene e Mayara escreveram redações que refletem o desejo de milhares de adolescentes do País: um Brasil com políticos mais honestos, escola mais democrática, professores mais bem remunerados, menos violência, saúde mais digna, comida para todos, arte, esporte e lazer.
Elas gostariam ainda que o País lhes desse oportunidade ou que alguém as ajudasse na realização de seus sonhos. Cristiane adoraria ser dançarina e cantora. Nunca pôde fazer um curso. Fabiana ainda não decidiu sobre seu futuro, mas gostaria de tocar teclado. Marlene planeja aprender espanhol e, quem sabe, usar a língua para sua futura profissão. Mayara já ensaia no coral da igreja e não tem dúvidas de que, se tiver chance, poderá seguir a carreira de sua ‘‘musa inspiradora’’: a cantora evangélica Aline Barros, de São Paulo.
As quatro garotas são tímidas, mas confessam que perderam a vergonha de escrever sobre um país melhor por acreditar em mudanças. Sueli Aparecida Lourençon Forli, assistente social do Anália Franco, que abriga cerca de 70 crianças e adolescentes em cinco casas-lares, elogia a iniciativa do projeto ‘‘O País que Queremos’’. ‘‘Estimula o exercício de cidadania’’. O fundador do lar, Pedro Cândido Romero, lembra que a responsabilidade pela transformação social é dever de cada um. ‘‘Aquele que estiver descuidado, não respeitar e não se dedicar ao próximo, vai sofrer consequências’’, alerta.

CARTA
O País que Queremos...
1. Reforça os valores do amor, da fraternidade e da solidariedade.
2. Valoriza a educação, com recursos didáticos criativos que incentivam os alunos a pensar desde pequenos.
3. Prepara os jovens, na escola, para o trabalho e para a vida.
4. Une empresas e governo para promover cursos de capacitação profissional.
5. Oferece oportunidade de trabalho, mas também de diversão em paz, com lazer inteligente.
6. Possui vilas olímpicas espalhadas por toda parte e atendimento integral para crianças e adolescentes, despertando vencedores entre os excluídos.
7. Valoriza a arte e a arte é socializada.
8. Incentiva a renovação dos diversos meios de comunicação, de forma que o jovem possa contar com mais um aliado – a mídia.
9. Conta com uma justiça que é igual para todos.
10. Tem autoridades que abrem portas, janelas e assentos de seus conselhos, comitês, secretarias e ministérios para que os jovens, organizados, façam, política.

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