Jota
Entramos em setembro e o brasileiro passa a apresentar estranhas perturbações. Nada a ver com a entrada da primavera, que já vem vindo. É coisa mesmo da nossa democracia, desopiladora do fígado e excelente para o sono. De dois em dois anos, com intensificação em determinados anos, os sintomas se apresentam sem causar grandes espantos já que são assemelhados a uma gripe: é chato, às vezes derruba, mas acaba sempre passando sem danos maiores.
Sonolência, irritabilidade, ansiedade. Se o distinto e a distinta já estão sentindo os efeitos, não se preocupem: é só o horário eleitoral. Há uma tendência de agravamento com a proximidade de outubro, mas nada que não possa ser tratado na sua própria cama depois das eleições, já que todos os candidatos prometem médico em casa.
Perplexos, reconhecemos neste período nosso total desconhecimento da sensação de felicidade, que nos agarra em cada esquina da cidade. A quantidade de soluções oferecidas - de graça! - é de fazer de qualquer povo o mais cordial do planeta.
E o brasileiro, que já tem tendência para a cordialidade - fora uns assassinatos por aí, mas deixemos de fora fatos desagradáveis em época tão extasiante - se esbalda com tanta coisa boa. Com tamanha variedade de soluções geniais apresentadas ao eleitor, há até que se lamentar que o Brasil seja tão modesto em número de questões problemáticas. É urgente a criação de novos e variados problemas - atenção tucanos: levanta a mão e vamos lá - para atender às necessidades prementes desses resolutos reformadores do universo que nascem da nossa democracia.
Para colaborar com essa gente tão desprendida, elaboramos um rol de promessas para uso rápido e indolor. Sempre no afã de aperfeiçoar essa democracia tropical que se transforma, mais e mais, em um moto-contínuo de soluções. Haja problemas, brasileiros e brasileiras.
Jota





