JORNALISMO INVESTIGATIVO - 'Renan só seria cassado por causa da imprensa'
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sábado, 15 de setembro de 2007
Janaina Garcia<br>Reportagem Local 
Depois do impeachment do ex-presidente Fernando Collor, em 1992, e do escândalo do pagamento de um ''mensalão'' a deputados da base aliada ao governo Lula, em 2005, o jornalismo investigativo no Brasil nunca mais foi o mesmo. De lá para cá, saíram peças-chave do governo federal, expostos em dezenas de reportagens antecipando até mesmo investigações do Ministério Público (MP) e da Polícia Federal (PF). Ao mesmo tempo, estruturas até então relativamente estáveis, como o Senado, se viram expostas semanas seguidas no noticiário de todo o Brasil após seu presidente, Renan Calheiros (PMDB-AL), ser acusado de quebra de decoro parlamentar.
Na sessão da última semana, Renan escapou da condenação do plenário. Antes do resultado, um prognóstico: ''Se ele for cassado, o será por causa da imprensa. Se dependesse do Senado, ou mesmo do governo, não seria''. A avaliação é do jornalista José Roberto de Toledo, coordenador de cursos e projetos da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Ele veio a Londrina para uma palestra sobre o jornalismo investigativo promovida pela FOLHA, a profissionais da casa.
Com 22 anos de profissão - 13 deles no jornal Folha de São Paulo, e quatro no portal Terra -, Toledo acredita que o jornalismo investigativo no Brasil teve um salto de qualidade desde as investigações da mídia sobre Collor. ''Saltamos de uma fase de meros papagaios de transmissão de denúncias alheias - fossem elas de partidos políticos, ou do Ministério Público (MP) -, para investigações próprias'', disse. Para ele, reportagens investigativas sobre o mensalão, iniciadas pela Folha, e sobre a quebra de sigilo bancária ilegal do caseiro Francenildo Costa (que culminou com a queda do ministro da Fazenda, Antonio Palocci), pelo jornal O Estado de São Paulo, são exemplos clássicos do novo fôlego dessa especialidade.
Toledo acredita que o caso Renan também é emblemático desse novo papel que a imprensa tem assumido de expectadora e, de certa forma, agente dos fatos. ''É um caso fundamental, pois foram jornalistas que foram até Alagoas descobrir que ele estava lavando dinheiro com pecuária; que o frigorífico era falso, que a fazenda não era dele, que havia laranjas nessas negociações... Não foi o Senado, o MP ou a Polícia que chegaram a isso. Na verdade, finalmente o jornalismo começou a fazer investigação sozinho.''
Por outro lado, o coordenador da Abraji defende que a evolução não chegou a um patamar ideal de maturidade - e, avalia, por questões técnicas. ''Estamos evoluindo, mas ainda muito longe de chegar aonde é preciso: nós, jornalistas, ainda temos muitas deficiências técnicas, temos empresas com deficiências de infra-estrutura e número de profissionais, e tudo decorrente da conjuntura que vivemos, que é algo que não vai mudar'', analisa. E para o jornalista, qual o conselho? ''Buscar estar mais bem preparado para enfrentar essas realidades, estudar assuntos com os quais não está acostumado e aprender mesmo especialidades que parecem enfadonhas, mas que são essenciais. Em suma: o que vale é se aperfeiçoar ainda muito mais.''
Questionado se o acréscimo de matérias e reportagens essencialmente investigativas denota, em outro vértice, que o jornalismo se incumbiu de uma deficiência do Estado, Toledo discordou. ''Porque a Polícia Federal (PF), por exemplo, nunca investigou tanto na vida, mesmo com todos os poréns de uma superexposição de algemas e quetais'', comentou. ''Nunca tanta gente de colarinho e gravata foi presa e mostrada sendo presa, e isso tem um efeito pedagógico fundamental para a sociedade. Assim, não dá para dizer que a imprensa faz mais, e outros, menos: é a sociedade que está se cansando da impunidade e demandando que todas as instituições, inclusive a imprensa, investiguem cada vez mais. Ninguém aguenta conviver com o grau de impunidade que existe no Brasil.''


