O ex-prefeito de Ponta Grossa, Jocelito Canto (PSDB), mantinha um complexo sistema de escuta eletrônica na prefeitura, que incluía grampos de telefone e gravações de áudio e vídeo. A revelação foi feita ontem pelo prefeito Péricles de Holleben Mello (PT), que mandou fazer uma varredura completa no prédio. Em apenas um dia de trabalho, foram encontrados três conjuntos de equipamentos instalados no teto e nas paredes do gabinete do prefeito, além do grampo telefônico. Para fazer a ‘‘limpeza’’, foi preciso retirar a cobertura de gesso existente no teto. Péricles avisou que todas as secretarias passarão por um ‘‘pente fino’’ para detectar novas escutas.
Ouvido pela Folha, Jocelito admitiu ser o responsável pelos equipamentos e alegou ser um ‘‘sistema de segurança’’, utilizado ‘‘quando havia necessidade’’. Segundo ele, o primeiro equipamento foi instalado no final de 1997 e o restante em 1998. ‘‘Eu gravava algumas reuniões porque às vezes as pessoas falavam coisas e não cumpriam. Com a gravação, eu tinha uma prova das declarações que muitos esqueciam que tinham dado’’, justificou.
Jocelito disse que a escuta funcionava apenas no prédio da prefeitura e assegurou que não mandou instalar nenhum sistema de espionagem em outros prédios públicos, como chegou a ser comentado. ‘‘É mentira. E eu mesmo comuniquei ao Péricles a existência desse sistema’’, defendeu-se. Outra alegação do ex-prefeito é que, com o sistema de gravação, ele ficava protegido de ‘‘propostas indecorosas’’ que pudesse vir a receber. ‘‘Acho que um pouco desse meu cuidado foi pelo fato de eu ser radialista’’, esquivou-se.
Segundo o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Paraná, José Hipólito da Silva, a instalação desse tipo de equipamento, desde que não seja clandestina, pode ser feita. ‘‘Como se trata de um prédio público e de uma pessoa pública, não vejo ilegalidade na instalação’’, declarou. Já a escuta telefônica, conhecida como grampo, é ilegal.
Jocelito garantiu que na sua época como prefeito não existia grampo nos telefones da prefeitura – apesar de pelo menos um desses equipamentos ter sido encontrado pela atual administração. ‘‘Eu inclusive mandei instalar no gabinete um aparelho anti-grampo’’, salientou. Ele acrescentou que nas varreduras que mandou fazer durante seu governo nunca encontrou nada irregular.
Os equipamentos retirados, a princípio, devem ficar sem uso. Mas o chefe de gabinete, Valdenor Paulo Nascimento, garantiu que se o atual prefeito resolver instalar novamente as câmeras, a população será informada. Seria, segundo ele, uma forma de garantir a segurança do prefeito, sem o ar de espionagem que imperava no governo anterior.
Nascimento disse ainda que a providência foi tomada por precaução, já que correm boatos de que existem equipamentos de escuta e gravação clandestinos dentro do prédio e que uma rádio da cidade podia captar as conversas que correm dentro do gabinete.
O chefe de gabinete confirmou que Jocelito havia informado a nova administração sobre os sistemas, durante o processo de transição. A intenção da atual administração é estender essa varredura para os departamentos da prefeitura que funcionam em outros prédios.

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